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“Você já matou alguém??”

Por Pensamentos Imperfeitos Publicado em 04 de janeiro de 2010 Atualizado em 18 de agosto de 2026 4 min de leitura

Todos os colegas, com algum tempo de Polícia, qualquer Polícia do Brasil e do mundo, irão lembrar de algum momento em que lhes fizeram uma das perguntas mais comuns. “Você já matou alguém?” Incrível como o imaginário popular guia as mais diversas mentes para eventos de vida e morte no cotidiano policial.

Eu mesmo já fui indagado diversas vezes…nas mais inusitadas situações. Por autoridades e por pessoas alheias ao DPF. Principalmente pelos meus alunos. O que respondi? Depende sempre de quem pergunta…Uma mesma verdade pode ser observada sob diversos ângulos. Isso é diretamente ligado ao tipo de questionador. Acredito que uma resposta afirmativa lança o indagado a patamares surreais da imaginação do indagador.

O fato é que poucos policiais têm a infelicidade de puxar o gatilho de forma tão incisiva. É certo que em alguns lugares como o Rio de Janeiro, a possibilidade do tira se envolver em eventos nos quais seja obrigado a disparar sua arma, é muito grande. Eu mesmo, com pouco mais de um mês de Policia, vi-me imerso em um tiroteio na Providência, que até serviu de base para que eu escrevesse o capítulo inicial do meu livro “Anjo da Noite”.

Mas matar é um verbo difícil de ser conjugado. Pelo menos como a maior parte das pessoas o imagina. A verdade é que um homem só conhece a natureza mais profunda de si mesmo, quando observa um semelhante tombando sem vida, por conta de uma ação sua. Ali, é possível separar dos homens comuns, aqueles que desconhecem o remorso e incorporam o manto negro dos anjos exterminadores.

Em quatorze anos de Polícia, vi muita coisa ruim acontecer perto de mim. Perdi colegas, que foram executados sem piedade, pela simples razão de serem policiais. Como pensar com clareza num momento extremo, afastando da mente, o tão natural desejo de vingar a morte de uma pessoa querida? Como manter a mente sã, diante de um quadro de guerra crua, por motivos quase sempre banais, que vivemos todos os dias?

Aprendi a não julgar os homens. Não sou ninguém para isso…Os atos sim…Pois o homem é muito mais amplo que uma atitude, apenas. Por um momento, já vi as mais dóceis ovelhas se transformarem em selvagens cães de guerra…Talvez, eu mesmo seja um exemplo disso. Um grande amigo do Grupamento de Pronto Emprego costuma dizer que eu sou o mais zen, o mais paciente, o mais tranqüilo policial que ele conhece. Não é raro ser chamado de “monge”. Mas esse mesmo amigo diz, que quando meu limite é alcançado, eu sou o que há de pior…O mais sinistro…

E estive em situações limites. Algumas vezes…passado o medo grande que senti na Providência em janeiro de 1997, nunca mais o senti…não… Tive a oportunidade de operar com os melhores policiais das três Polícias. Orgulho-me disso. E há muito tempo, deixei de pensar em vida e morte em operações sérias da área de segurança pública. Um atirador em uma laje é um inimigo a ser neutralizado. Este é um termo que aprendi com um dos integrantes do Comando de Operações Táticas, o COT, que mais respeito nesta vida. O mais importante é garantir a segurança da equipe. Se o atirador foi ferido, morreu ou saiu correndo, o que faz diferença é que do ponto onde ele estava, pararam de vir os tiros.

Obviamente, existem homens que sentem prazer (acreditem!) em matar. Tive a oportunidade de conhecer alguns. Muitos eram e são excelentes chefes de família, dóceis com aqueles que prezam e grande respeitadores dos amigos. Entretanto…um inimigo que tomba não chega a ser, para esses, mais importante que tomar um copo com água.

Nenhum outro mundo lança o homem em universo tão potencialmente brutal, como é o mundo Policial. É uma verdade…mas nenhum outro mundo coloca o homem em condições de agir e fazer diferença em momentos singulares…os homens que respiram…os homens que sentem…os homens que defendem os homens…

Tenho consciência de que muitos recuam, quando pensam em viver Polícia, pela iminência insistente do conflito armado. Tenham dentro de si a certeza, de que na infinita amplitude de suas atribuições, os combates são uma possibilidade real, porém menor do que imaginam…ao meu redor estão inúmeros policiais, que jamais precisaram acionar seus mecanismos de disparo, ao longo da carreira. Tenham fé…mantenham a retidão…estejam ao lado dos bons…e caminhem sem medo por este mundo em guerra constante…

Sobre este texto

Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.

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Sobre o autor

Pensamentos Imperfeitos

Escritor e cronista

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22 comentários

  1. Legal o compartilhamento de experiências feito. Muito bom o texto. Acredito que tentar se manter "zen" é o que muitos precisam, a concentração é vital para conseguirmos absorver mais do ambiente e aprender com isso. Tenho tentado muito trabalhar nesta linha. Até baixei "O buda e o bonsai" indicado por você nuns posts antigos que li. Para ilustrar uma frase conhecida: "Quanto mais quieto fico, mais sou capaz de ouvir"

  2. Sabia que mais cedo ou mais tarde você iria abortar esse tema;quantas vezes eu dei umas broncas em alguns membros da comunidade que perguntavam isso para o Marcelo e outros PF's que na época participavam ativamente na comunidade.Uma vez um amigo de escola,quando estávamos na 8ª séria me disse:" O bom policial não mata,se defende…" Nunca mais esqueci essas palavras.Li certa vez também que Deus julga mais pela intenção do que pela ação,um policial que mata sem intenção homicida,apenas com intenção de defesa é uma coisa,o que age nas mesmas circunstâncias,com intenção defensiva mas com mentalidade homicida,é outra.
    Post excelente Anjo,grande abraço amigo!

  3. Realmente um dos melhores (se não o melhor) post já publicado…

    Gosto muito da forma que vc escreve Sandro. Expressa suas ideias e sentimentos de uma forma espetacular. PArabéns…

    O tema é muito importante, principalmente aos aspirantes(como eu). As vezes me pergunto o que faria em situações que exigissem o combate… realmente é complicado. Acho que só ao vivo para ter certeza.

    Obrigado pelas palavras.
    Grande abraço.

  4. "Neutralizar" um ponto, esse termo tira a sensacao de estar fazendo mal a alguem.
    Excelente post.
    Cada homem e um universo distinto. Muito boa sua visao acerca dos diversos temas.
    Parabens!!
    abraco

  5. Que curioso isso… estava na praia, logo no primeiro dia do ano quando um amigo me perguntou "você já pensou que pode acabar matando alguém?" quando eu disse que seria policial. Ler essa postagem foi quase como um dèja vu.

    Sua visão de mundo é sempre abrangente, e sempre surpreende, Sandro!
    Grande abraço.

  6. Esse é um bom tema para gerar polêmica. Fica combinado que matar por matar não vale! Mas como a doutrina utilitarista nos ensina, temos que agir sempre de forma a produzir a maior quantidade de bem-estar. E não é um PUTA bem-estar para a sociedade se o lixo for eliminado do nosso convívio? Em se tratando de ter que matar um vagaba, a sociedade não pode sofrer os efeitos explosivos que tem a morte de uma pessoa completa, pois alguns membros da humanidade, definitivamente, não são dignos de participar do nosso convívio. As pessoas podem ter certeza que vida e morte caminham juntas. É natural que na iminência de ser morto, a reação seja imediata e matar também é uma boa saída. É a lei da sobrevivência…
    Forte abraço e saudações Rubro-Negras do amigo Robert.

  7. Na verdade, este tema abrange todos os outros temas já discutidos anteriormente, a vida das pessoas. Estive sempre aqui, apoiando a preservação da vida humana e a possibilidade do mesmo "dar a volta por cima" e se recuperar dos atos e caminhos errados da vida (mtos assuntos abordados nos temas referente à drogas). O mesmo cara que está na mira de tiro do policial, pode ser aquele que se irá se arrepender e irá mudar para melhor amanhã. O indivíduo neutralizado em combate é aquele que servirá de exemplo para os que realmente queiram mudar. Acredito que nada acontece por acaso. Ou Deus escolheu isso ou o próprio indivíduo. Como já dito, a intenção em ambas as partes que está em jogo.

    Abraço!

  8. Amigos,
    Realmente é um tema complexo, principalmente para nós, que o destino achou por bem inserir no singular universo policial.
    Interessante é recordar minha trajetória, onde jamais havia pensado em entrar para a Polícia Federal, até que me inscrevi, meio que por acaso, mais para sair da Marinha, do que por outra razão.
    Se jamais pensei em ser Policial, disparar na direção de um alvo vivo era meio que impossível…Queria sim, ser comando da Marinha, pertencer ao GruMec, mas daí a estar imerso em terríveis tiroteios, com todas as suas nuances e ruídos apavorantes para qualquer mortal, vai uma distância muito grande.
    A verdade é que me vi Policial…e acabei com esse "vírus" correndo em minhas veias, coisa que já acontece há quase 14 anos. Encaro de forma apaixonada, mas também extremamente profissional.
    As "neutralizações" acabam ocorrendo, para um policial operacional que vive no Rio de Janeiro. Como conviver com isso? Acreditando que é o certo e estando ao lado da verdade. Lembro de uma vez que fizemos uma grande operação em uma grande favela carioca e um colega de outra corporação perguntou quanto eu estava levando de munição. Quando eu respondi que tinha dois carregadores de 30 tiros de 5.56, três de 17 tiros para pistola 9mm mais os que eu tinha no fuzil e na própria pistola, ele riu e disse: "Não dá para nada." O meu conceito de operacionalidade era e é bem diferente do que ele devia ter.
    Jamais atirei no que não vi.
    O treinamento é a palavra-chave. Muitos não têm como treinar. Eu, graças a Deus, sempre tive. E isso me tornou confiante e ao mesmo tempo cauteloso.
    O medo ficou na Providência em Janeiro de 1997.
    A morte perambula por perto. Mas ela conhece o endereço de todos nós e não aparecerá antes da hora.
    Quanto a matéria, Vinícius, vi e não gostei.
    Eles são os melhores para mim. Serão sempre. Cresci observando-os e querendo ser igual a eles. Mas faltou realidade ali.
    Grande abraço a todos

  9. Caramba Sandro, pelas palavras que usou e decepção no final, fez parecer que o GRUMEC é um comendo perto do COT. Vi ambas no youtube e pareceu que o COT é muito superior ao GRUMEC, porém deu pra ver treinamento MUITO puxado do GRUMEC na matéria.

  10. Petterson,
    Sem dúvidas, para mim, eles são os melhores. Até porque passei minha infância frequentando aquela base e vendo o treinamento deles.
    Existe uma áurea de "impossível" naquele curso. Em matéria de unidade POLICIAL, o COT realmente tem a melhor estrutura e esta mesma estrutura está entre as melhores do mundo.
    Mas em termos de unidade militar…é o GruMec. A coisa é muito mais séria do que a reportagem mostrou.
    Abraço grande

  11. Sandro, lembrei de um e-mail que circulou na internet e que o War me fez lembrar:

    PERDOAR OU NÃO PERDOAR?

    Perguntaram a um coronel do BOPE (Polícia de Elite do RJ), se perdoaria os traficantes que derrubaram o helicóptero da PM, matando 3 policiais

    A resposta:

    "Eu creio que a tarefa de perdoá-los cabe a DEUS.
    A nossa é de simplesmente PROMOVER o ENCONTRO".

  12. Muito bom texto, Sandro.. Falando HOJE, sem viver esse tipo de situação, sem ainda ser policial, qndo me perguntam "mas vc não vai ligar se matar alguém?", eu respondo que não, que eles escolheram o caminho deles, que não farão falta pra sociedade e que quem poupa o lobo sacrifica a ovelha, se ele não morresse, ele podia matar nossos filhos amanhã. Mas não penso em prazer em matar.. Você também pensa assim ou eu sou meio "psicopata/anormal"? haha

    Aproveitando que você citou o COT e o amigo ai o Grumec, vc podia fazer um post sobre o COT né.. meu sonho é entrar lá, sei la, algumas infos do treinamento, do curso, do que fazem, curiosidades..
    Abração!

  13. Meu pensamento é bem parecido com o do amigo Calebe aí… Nunca atiraria ou mataria alguém sem necessidade, mas colocada em risco a minha integridade ou de qualquer outra pessoa, penso que não hesitaria 1seg em puxar o gatilho e "neutralizar" o elemento. Dormiria como um bebê depois. Mas isso tudo eu ACHO. Só vivendo pra saber… A gente nunca se conhece o bastante.

  14. Primeiro, conflito é conflito… se sua integridade esta em perigo, fazer o necessario para se salvar nao é errado , alias é extinto… e provavelmente o extinto humano mais antigo… o da sobrevivencia…
    E sua integridade, estar em jogo, é algo que tem de ser levado em consideração a analise… um homem desarmado, se for um faixa preta pode te dar uma surra pegar sua arma e te matar… abordar com sangue doce tambem é arriscado, alguns menininhos ja "mataram" muita gente…
    entao é muito relativo…
    Quanto a questão "remorso", quando sua bunda esta na reta do fogo , é bem dificil sentir isso , acho muito mais facil sentir algo do tipo "me salvei"…
    Morrer todos morrem, ha os que morrem por fazer merda…
    Policial ou não , militar ou não , defender a propria integridade e a de terceiros (principalmente familia) não é crime é receber uma bensão…
    Um simples exemplo:
    Voce esta em sua casa , ouve um barulho estranho , pega sua arma , o meliante arromba a porta e esta dentro de casa , então é um "assalto" , porem vc nao tem ideia da peliculosidade desse sujeito , ele pode ser um assaltante que quer dinheiro e bens materiais "apenas" , ou pode ser um psicopata que alem disso vai querer estrupar a sua familia e quem sabe assassinar e feri-la… voce tem duas opçoes , abater os bandidos , ou largar a arma e rezar pela SORTE que na melhor das circunstancias apenas levem objetos e dinheiro… pois bem , se o bandido esta INVADINDO uma casa , bem intencionado ele nao está… porque diabos nao abater o maldito? por ficar com remorso de ter mandado ele pro colo do capeta?
    pois bem , eu prefiro talvez sentir algum remorso por isso , do que quem sabe sentir remorso por ele entrar , estrupar minha esposa , filho , e talvez por alguem em uma cadeira de rodas pro resto da vida…
    Bandidos hoje em dia ja nao querem apenas dinheiro e objetos, eles querem humilhar , se sentir superiores, entao todo cuidado é pouco…
    Assim como no exemplo de um assalto a residencia , serve para um bandido que tiroteia com a policia, enquanto o policial de bons sentimentos senti remorso por ter dado a baixa em um marginal , o marginal quando abate um policial vai pra balada beber todas e comemorar com os amigos bandidos, ele vira heroi…
    Como um amigo que é psicologo estava conversando comigo certa vez , ele me perguntou: Se uma criança de 10 anos de idade esta com uma arma ameaçando atirar em voce , o que vc faria? o que seria o certo a fazer? Esta pergunta eu não respondi , ele mesmo respondeu dizendo o seguinte?
    Se é comigo e tiver lanche , atiro na cara dele…
    Pois uma criança de 10 anos de idade com uma "arma" em mãos pronto para atirar , ja nao deve ser considerado uma criança, naquele momento ele é um ser com capacidade para matar… e por esse fato não é criança, deve ser tratado igual qualquer outra pessoa independente de idade , sexo , cor , com uma "arma em punhos"…
    Eu falei , "tens razão"…
    Logo , não podemos ser covardes… mas se nossa integridade esta em jogo, "bala neles" !

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