Vampiros e Moinhos de Vento
Seguidores,
Leitores eventuais e desavisados,
Escrevo hoje com um sentimento não muito bom, em relação a coisas nas quais ainda ACREDITO muito. Eu, que deposito grande fé nas iniciativas desenvolvidas por mim mesmo, com a ajuda de alguns companheiros, policiais ou não, percebo-me numa cruzada quixotesca, combatendo moinhos de vento intransponíveis.
Meu fiel escudeiro, que em nada lembra a figura de Sancho Pança, é um tão ou mais apaixonado ou mais que eu, pelo Projeto Geração Careta. Esse trabalho, quase artesanal, de tentar conscientizar o meio à nossa volta, do quanto é absurdo, sem cabimento, irresponsável e de caráter duvidoso, estar envolvido na complexa rede que é o consumo de entorpecentes, sejam eles ilícitos ou não.
Talvez mesmo pelo fato de darmos tanta ênfase à questão das drogas legais, eu tenha a clara idéia de que, em muitas de nossas palestras, nossa energia espiritual vai sendo sugada, de uma forma às vezes até agressiva, por tantos que ali estão, por vezes obrigados pelas instituições que visitamos.
Falar de tabaco e álcool numa sociedade como a nossa é quase como xingar amigos próximos. O segundo ainda mais que o primeiro, visto que devemos agradecer muito as iniciativas de um certo senhor de nome José Serra, que por ora governa o estado de São Paulo, e que muito contribuiu com políticas sérias de conscientização e controle de propaganda do cigarro.
Tal iniciativa é inócua para o álcool. Somos reféns de anos de cultura equivocada, de tolerância aos maus hábitos, de falta de honestidade no tratamento do assunto entorpecente. Somos prisioneiros do dinheiro das indústrias de bebidas alcoólicas, que patrocinam o imaginável e o inimaginável em todos os meios de comunicação de massa.
Uma jornalista que acabou se tornando amiga do Projeto Geração Careta, nessa curta jornada até aqui, disse de forma clara, para mim e para o Alexandre Agra, que nossa meta era impossível, utópica, que brigar contra um costume como esse, do consumo “social” de álcool, é, de verdade, algo típico do personagem de Cervantes.
Hoje, pela primeira vez, senti-me fraco como se existissem vampiros ocultos no meio das pessoas, Guardas Municipais de Niterói, que assistiam mais uma palestra do Projeto. Percebi o fogo que me impele para frente, diminuir de intensidade, diante de tantos sentimentos, que variavam desde a mais profunda culpa, até uma raiva pura e simples, por estarem ali, ouvindo uma espécie de “sermão”, de dois “nerds”, quase aberrações, que nunca tiveram vícios, que nunca beberam, que nunca fumaram…Eu e Alexandre…Dois cavaleiros obstinados, tentando arrebatar outros, para uma causa nem sempre ( ou quase nunca ) bem recebida, até mesmo por aqueles que rejeitam as drogas como nós.
Apesar do sentimento claro de ter sido “vampirizado” e de que isso ocorrerá muitas vezes durante nossa cruzada quixotesca. Apesar do sentimento de estar QUASE solitário nessa jornada. Apesar de perceber que alguns que se aproximam, dizendo-se interessados em ajudar, querem apenas utilizar nossos conceitos para fins nada nobres. Apesar de momentos como este, no qual questiono tudo o que gira em torno de Caretas como eu e meu parceiro no Projeto. Tenho a clara noção do quanto precisamos continuar. Do quanto fazemos e faremos a diferença nas vidas de poucos, que representam muito.
Apesar de tudo. Dos vampiros. Dos moinhos de vento. Nossa cruzada não mais terá fim. Nunca mais. Depois de nós virão outros, ainda que poucos…mas existirão, para mostrar ao mundo o quanto é possível estar livre do entorpecimento da mente e da escuridão que toma as almas daqueles que vêem nas drogas, saída para o que quer que seja.
Sobre este texto
Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.
2 comentários
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Sandro, vou orar a Deus pelo seu projeto. A minha participação física é um pouco complicada, mas a ajuda espiritual posso garantir. Que Deus os abençoe nessa empreitada.
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