Tragédia no RJ
Não seria justo ficar em silêncio após uma tragédia tão marcante. Algo antes distante da nossa realidade agora veio de encontro a todos nós, mostrando que não é apenas fora do Brasil que acontecem certos tipos de incidentes. Ao longo da minha vida, ouvi muitas vezes as pessoas dizerem que, “Pelo menos aqui ninguém entra nas escolas matando a esmo. Isso é coisa de país A ou B.” Não meus amigos…Não é coisa de um lugar ou outro. É algo que hiberna nas mentes e corações de muitos seres humanos. A violência, o rancor, o desejo de vingança, as frustrações impostas por anos de humilhações.
Atualmente, minha visão do assunto tem vertentes na segurança pública e no comportamento dos jovens e adolescentes, uma vez que hoje sou o Professor Sandro Araujo, que lida com alunos dos 13 aos 20 anos. Na verdade, nunca deixei de estar em sala de aula, o que me fez conceber opiniões firmes sobre o que o comportamento dos jovens pode causar ao seu meio.
Há pouco tempo, o mundo comemorou a reação de um adolescente australiano, vítima de Bullying em sua escola, que arremessou seu opressor contra o chão, causando-lhe contusões sérias, como bem mostrou o vídeo que virou febre no youtube. Ocorre que, tanto o oprimido quanto o opressor tiveram uma sorte muito grande no episódio, pois o tipo de queda aplicada pelo primeiro e forma como o segundo caiu no solo, poderia, sem sombra de dúvidas, ter levado o rapaz à morte. E se o opressor tivesse morrido? Seria o rapaz que se tornou herói de uma legião de vítimas de bullying, chamado de monstro assassino, ou ainda continuaria sendo louvado por todos?
Então é isso? A morte é o limite? É preciso que uma tragédia ocorra para que o mundo possa enxergar o quanto há de desvirtudes no comportamento de boa parte das crianças e jovens do mundo? Não, meus caros. Os adolescentes que morreram sob as mãos enlouquecidas de Wellington não tinham culpa de nada. Não eles. Mas o que acham que levou um rapaz sem passado criminal a planejar e executar um ato tão cruel? Uma série de fatores contribuiu para isso.
Psicopata: A Bomba Relógio
Existe quase que uma unanimidade entre os psiquiatras e psicólogos ouvidos após o episódio, sobre a impossibilidade de se detectar um psicopata em potencial. Mas alguns desses profissionais foram contundentes em dizer que várias coisas vão se aglutinando até que seja impossível para sociopata conter seu ímpeto de violência.
O fato é que o comportamento preconceituoso e muitas vezes cruel do grupo, acaba por deixar cicatrizes profundos naqueles a quem oprimem. Não escrevo como teórico. Acompanho esse tipo de conduta de crianças e adolescentes há 18 anos, desde o primeiro dia em que entrei numa sala de aula. Para ser aceito pela coletividade, um indivíduo precisa se “encaixar” em diversos itens impostos pelo grupo. Qualquer coisa que desagrade a “turma” faz com que a atitude em relação ao “diferente” possa atingir níveis absurdos de discriminação. Ninguém me contou isso. Não li em artigos pedagógicos. Eu simplesmente vi, e ainda vejo. Chega realmente a doer em mim. Hoje, em muitas ocasiões, o jovem que possui excelência acadêmica, que tira as boas notas, e que é pejorativamente chamado de “nerd” é sistematicamente alvo de exclusão pelos colegas considerados de comportamento normal. Um exército de nerds saberá reconhecer a situação, ao ler estas linhas. A maioria lida de forma sofrida com isso, mas acaba deixando de lado, pois a própria seleção natural da vida termina mostrando mais adiante que o nerd excluído terá muito mais possibilidades de êxito do que os “normais”. O problema é quando, no meio do exército de discriminados, existe um com uma patologia mental, impossível de ser detectada em princípio.
É um monstro de verdade, alimentado diariamente pela opressão, pela humilhação, pela falta de compreensão e outras coisas mais, que a crueldade pueril é capaz de gerar. Aos poucos, o monstro, solitário na maioria absoluta das vezes, vai abastecendo sua alma com rios de rancor e ódio, totalmente incógnito no meio da multidão. Ninguém sabe do que ele é capaz. Nem ele próprio.
Até que vem a explosão. E montanhas de ódio são colocadas para fora, como numa erupção vulcânica, deixando rastros de violência extrema por onde passa. Não duvidem. Como Wellington, existem muitos outros jovens e até mesmo adultos de certa idade, oprimidos por uma vida de exclusão, que guardam dentro de si essa doença silenciosa, que cria o psicopata.
A Necessidade de Mudança
Ministrando aulas para as turmas terminais do ensino médio, antigo segundo grau, percebo a falta de estímulo de boa parte dos alunos. Seus olhares são vagos durante a maior parte do tempo e são incapazes de mostrar grandes interesses por coisas que lhes possam ser realmente úteis.
Em contrapartida, o compromisso desses jovens com os grupos a que pertencem é quase religioso. Seguem as regras impostas e hostilizam abertamente aqueles que ousam ser apenas diferentes. São preconceitos dos mais variados, como os religiosos, sexuais e de classe social, que preocupam por se manifestarem tão cedo nesses indivíduos.
Então, eu pergunto aos pais: “Você sabe quem seu filho é fora de casa?” A maioria acredita que sabe, mas também sabem que estão redondamente enganados. Qualquer psicólogo ou psicopedagogo vai dizer que o comportamento do homem, de maneira geral, muda quando está inserido em um grupo. A identidade única é um sinal claro de uma maturidade que está, infelizmente, muito distante da maioria.
Assim, os cordeiros domésticos acabam se transformando nos lobos opressores, fomentadores de bullying e de outros males sociais, quando estão longe dos pais e no seio de suas tribos. E o que é muito pior. Grande parte dos pais se contenta com as visões caseiras que têm dos seus filhos. Acreditam, intimamente duvidando, que os filhos são as flores que aparentam ser em casa. E vão mais longe. São capazes de se colocar contra orientadores educacionais que ousam chamar suas atenções para o real comportamento dos seus filhos. Mais uma vez, ninguém me contou. Vejo isso há 18 anos. E ainda mais agora, ministrando palestras do Geração Careta para os pais, sofro isso na própria pele. Quando menciono que as atenções devem ser redobradas para as atitudes dos filhos, mesmo aquelas que parecem ser inocentes, na maior parte das vezes sou duramente criticado pelos pais, para quem tudo, em princípio é “inofensivo” ou “faz parte da adolescência”. Então os adolescentes seguem, sem culpa, ofendendo, desrespeitando, humilhando e mentindo em sua jornada rumo a uma fase adulta nem sempre sensata.
Não quero tirar culpas de certos ombros e colocar em outros. Muito distante disso. Mas é coerente perceber, que uma série de fatores é necessária para fazer o monstro despertar. Indubitavelmente, é um monstro. Não discuto isso.
Escola e Segurança
Se existem falhas na segurança das escolas? Sim. Existem. Assim como falhas são evidentes em diversos órgãos públicos. Se entra qualquer um? Sim, entra qualquer um. Mas não seria a escola pública aberta para todos? A discussão sobre a colocação detectores de metais nas portas das escolas, que certamente evoluirá para os hospitais é um tanto quanto complexa.
No caso do atirador de Realengo, seria praticamente impossível ele ser barrado em qualquer escola do Brasil, pois era ex-aluno sem histórico de problemas disciplinares e reconhecido por funcionários do estabelecimento. Acredito que um simples inspetor, que não permitisse o acesso do ex-aluno às salas de aula sem autorização da direção e sem um motivo justificado, já seria suficiente para diminuir as dimensões da tragédia.
Nós mesmos, do Projeto Geração Careta, quando chegamos para dar palestras em qualquer escola, seja da rede publica ou privada, somos sempre interpelados por algumas pessoas, antes de termos acesso a qualquer área onde os alunos estejam assistindo aulas. Acreditar que os detectores de metais são necessários para todas as escolas, é acreditar que passará a ser hábito que elas sejam alvo de psicopatas. Obviamente que a segurança deve haver. Nos portões, nos pátios e também nos arredores. Não me recordo, em 8 anos de palestras, de ter portões abertos de escolas onde estivemos.
Por outro lado, é notório o quanto professores e alunos são oprimidos por bandidos de toda a espécie, que estão muito distantes da psicopatia. São bandidos quase profissionais, que ameaçam professores, espancam alunos e depredam o patrimônio público, diante do olhar incapaz dos funcionários. Como enfrentar isso, que é o real problema de segurança nas escolas? Como dar segurança aos professores para que exerçam suas funções com a dignidade necessária, sem medo, sem o pavor de ser até morto por membros de facções criminosas, que chegam a lotear escolas? Se uma escola é de um comando, você sequer pode usar roupas de uma determinada cor. Acreditar que, diante de um quadro complicado de violência urbana que vemos, que um detector de metais vai barrar a entrada desses verdadeiros bandidos é pura ingenuidade. Ou será que o soldado do tráfico vai a escola com seu grupo e diante do aparelho vai dar meia volta, ou então deixar suas armas na portaria? Devemos ser proativos. Pensar a longo prazo, já que no curto prazo não é possível efetuar mudanças tão significativas. A sociedade deve participar desse debate: Segurança e Escola. Para o bem dos nossos no futuro.
O Papel da Internet
Um jornalista me procurou para perguntar se existiam vídeos na internet, com alguma didática do tipo “passo a passo”, nos quais seria possível aprender a manusear certos tipos de armamento. Sim, existem os vídeos. Através deles é possível observar padrões táticos de deslocamento, empunhaduras, visadas, formas de recarregar e mais uma infinidade de procedimentos, que, no meu ponto de vista, deviam estar cobertos sob a égide da confidencialidade.
Impossível é exercer qualquer tipo de controle sobre esses vídeos, pois eles são postados das mais variadas partes do mundo. Alguns são um verdadeiro exercício da vaidade de atiradores desportivos a agentes de segurança, que tentam mostrar sua destreza ao mundo. Entretanto, são uma enciclopédia, um verdadeiro manual de “aprenda sozinho”.
Se o indivíduo vai atirar bem assistindo vídeos? Acho pouco provável. Mas imitar padrões de unidades táticas, montar e desmontar alguns tipos de armamentos e estabelecer a melhor empunhadura para uma outra arma, é mais que possível. Para atirar bem, são necessárias muitas sessões de treinamento em locais apropriados, de preferência, com a presença de um instrutor.
Para o uso de um revólver calibre 38, não há grandes truques. Se alguém dispuser de uma área onde seja possível efetuar disparos, esse alguém, fatalmente, com o passar do tempo será capaz de adquirir um certo grau de destreza. O que parece que não foi o caso do atirador de Realengo. Pelo que diz a polícia, Wellington disparou sua arma por aproximadamente 60 vezes em um recinto fechado, onde as distâncias são relativamente curtas. Tivesse ele uma aptidão mediana para o tiro, estaríamos agora diante de um massacre de proporções infinitamente maiores.
Mas e as armas? Alguém acredita que é difícil obter uma arma? Será que existe alguém no país que ainda ache que adquirir uma arma é algo de outro mundo? Infelizmente, meus caros amigos, qualquer elemento da sociedade pode comprar uma arma num raio máximo de 10 km de sua casa. E aí…diante de quadros de ódio extremo, fica quase impossível prever quando a violência aflorará.
É uma questão grave essa das armas. Muitos já arvoraram essa bandeira. Eu mesmo participei de debates na época do plebiscito. Acho que devemos discutir muito o assunto. Mas de uma forma muito mais ampla, com a participação de segmentos da sociedade, que se omitiram naquela ocasião.
Resta-nos agora, elevar nossas orações a Deus, por aquelas crianças. Culpa alguma tiveram de todos os fatores que levaram Wellington até elas. Nada fizeram para merecer esse triste fim. Na verdade, nem tiveram tempo para isso. Mal haviam começado a viver. Cabe a nós, honrarmos as vidas dessas crianças, colocando-nos de forma veemente ao lado do bem e exigindo que a sociedade se uma para que o futuro dos nossos filhos seja menos obscuro do que este, que por ora se apresenta.
Sobre este texto
Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.
2 comentários
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Parabéns por mais esta postagem!
Lendo e aprendendo sempre que posso acompanhá-lo.
Abraço,
A.G.
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Sou contra o desarmamento, sou a favor de um controle rígido de armas.