Terra Natal e outras jornadas
Essa minha mania de ouvir músicas de outras épocas…
Não… elas não me lembram pessoas ou fatos singulares… raramente isso acontece e hoje existem algumas músicas que me fazem chorar (literalmente) de amor…
Mas não é sobre amor que vim escrever. Essa música do Bruce Springsteen, tio Bruce para os pequenos Martin e Ravi, fala sobre as ligações de um homem com sua terra natal, as lembranças de seu pai e como a sua cidade foi degradada pelo tempo
Lembrei que tive muitas terras natais, apesar de ter nascido em Maceió, Alagoas
Fui ainda bebê para Natal, no Rio Grande do Norte, para depois chegar ao RJ por volta dos 4 anos de idade
Morei um pouquinho de tempo no subúrbio do Rio e em 1976 minha família chegou em São Gonçalo, na região metropolitana
Fui criança naquela cidade. Não era muito de brincar na rua, mas andava mais ou menos livre por lá desde muito pequeno. Lembro que ia para a escola sozinho já aos sete anos de idade… talvez seis… andando perto de um quilômetro para ir e a mesma coisa para voltar
Tornei – me adolescente ali… introspectivo sim, mas sempre exercendo minha obrigação humana de ser cordial com os outros
Abro um parêntese para falar mal de muitos que vivem no mundo de hoje, indelicados, pouco gentis, sempre com fones nos ouvidos e com um olhar blasé de quem está fazendo um favor por dividir o ar que respira
Voltando a São Gonçalo, era (e ainda é) uma terra de gente simples e solidária. Pessoas que, via de regra, olhavam ao redor sem grandes julgamentos de posses
Ainda é comum ver casas muito boas e grandes ao lado de outras ainda sem pintura, com os tijolos aparentes…
Os gonçalenses tem apreço por suas raizes, pelos comerciantes da área, por todos que compõem a paisagem do lugar
Mas eis que em 1985, meu pai resolveu se mudar para Niterói… lugar onde ele havia morado assim que chegou ao RJ, ainda na década de 60…
Nós tínhamos o hábito de ir a Icaraí nos finais de semana, desde que eu era muito criança, para a casa de um tio querido que morava lá
Meu pai jogava num “racha” tradicional da Praia de Icaraí, no qual era considerado uma lenda
Era meio que um “Rei da praia”…
E então, saímos de São Gonçalo, para morar num apartamento ajeitadinho numa rua quase ao lado do Campo de São Bento
Eu tinha 14 anos…estudava no Centro do Rio nessa época
E eu vim aqui escrever sobre isso, porque acho importante tirar véus… desnudar … falar sobre verdades
Eu com 14 anos e minha irmã com 10… não lembro de ter sido tão segregado pelos adolescentes e crianças da nossa faixa etária como naquele momento da vida
Era um “bullying” extremo, pelo simples fato de termos vindo de São Gonçalo, que os habitantes de Icaraí achavam “inferior” em tudo…
Era constantemente chamado de “paraíba” pelos meus colegas de bairro… e davam as razões da minha “paraibagem”
Eu usava Havaianas nos pés
Camisetas brancas sem estampa (basiconas)
Minhas bermudas eram calças cortadas (sempre gostei)
Na bela praia que tinha um breguissimo “Fora Haole” pintado em seu Costão, acostumei-me a tentativas de achincalhamento… mas funcionava pouco comigo
Eu realmente não ligava para esse tipo de coisa… roupas, marcas etc
Passei essa fase andando pelo mundo sem companhias, sem “bandos”, sem turmas…
Foi singular para um adolescente, mas serviu para que eu enxergasse que não doía estar sozinho, se o propósito disso fosse evitar a companhia de gente medíocre
Os pobres adolescentes, crias da zona sul de Niterói daquela época, coitados, não conseguiam viver sem suas etiquetas
Para a minha irmã foi pior, eu acho… sofreu todo o tipo de ataque por conta de origens humildes, o que fez bastante diferença na construção da mulher que ela é
E era uma menina de 10 anos apenas , quando fomos recepcionados pelo bairro rico de Niterói
O tempo passou, fomos morar no Nordeste e depois voltamos para Niterói… já adultos… (naquela época pessoas de 20 anos eram adultas)
E passamos cada vez mais a fazer parte do cotidiano da cidade…
Crescemos… construímos personalidades
Mas eu não esqueço e vim aqui contar…
Como escrevo em um blog, que é meu há 16 anos, tenho liberdade para tirar máscaras
Niterói, a “prima rica” de São Gonçalo, julga-se muito, mas muito superior… seja pelas belezas naturais ou pelos seus moradores
Como os niteroienses costumam dizer:
“Meu país Niterói”
Bjs em todos
Sobre este texto
Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.
2 comentários
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Pois vou lhe dizer que não era apenas em Icaraí. Estudei no IEPIC e sofri horrores por ser moradora de SG . Niterói sempre foi cidade elitista.
Os moradores de Icaraí criaram algum tipo de protesto quando na época da construção do Terminal souberam que os ônibus de SG também iriam ali pra dentro.
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Excelente texto.
Icaraí sempre foi um bairro muito opressor. Para tornar tudo ainda mais difícil , fiz o Ensino Médio numa escola no coração de Icaraí que não tinha uniforme obrigatório; que desgraça! Era um pesadelo.
Uma calça jeans e um tênis. Era o que eu tinha.
Comecei a trabalhar em loja para comprar minha Kenner, meu Nauru, ( quem não tinha não era "gente") uma roupinha aqui e outra acolá, com um Redley bem visível. Meu pai já pagava a escola particular e realmente esses dramas não faziam o menor sentido para ele que saiu de casa aos 15 e teve que se virar…aí já é outra história.
E o colégio era tão opressor que mesmo os alunos que eram do Fonseca, do Barreto, que iam de carro, alguns com seus próprios carros, eram chamados de "paraíbas" pelos alunos locais de Icaraí.
Lembranças nada legais.
E pelo que vejo, não mudou muita coisa não….Será?