Sonhos perdidos…
Dia desses conversando com meu irmão sobre a opção de andar sumido e não mostrar muito da vida, houve um espaço para uma grande identificação existencial.
Quando ele me disse que: “Aí não tem a torcida a favor que é obscuramente contra.”
refleti um minuto sobre isso e acredito realmente que as vezes as pessoas não torcem exatamente contra, mas diante das suas frustrações e mediocridades caem na armadilha da comparação.
Aí de forma, muitas vezes, indesejada acabam exalando um sentimento involuntário de inveja , de cobiça, de desejo.
Falo com propriedade, pois vivo me comparando com muitas amigas e sem sombra de dúvida tenho a lúcida certeza de que sou menos sucedida do que gostaria, principalmente quando penso no que nos é imposto como regras de sucesso na vida.
Com carimbo e certificado; loser.
A vida mais chata e medíocre do universo.
E não torço para que elas se deem mal, só queria que as coisas fossem ok pra mim também.
É horrível mas é real.
Tem determinados perfis, de pessoas queridas, que pulo.
Evito ver.
Porque ao mesmo tempo que acho muito legal, me trazem um sentimento muito ruim de frustração.
A comparação é uma merda e a invejinha involuntária é uma lástima, mas é real.
Por isso, é sempre melhor viver na discrição.
As conquistas e retratos de uma vida muito legal e perfeita atraem a energia pesada dos frustrados.
E não é maldade.
Até acho que tem gente ruim mesmo , que tem sentimentos ruins e que vivem a desejar o mal e a cobiçar o alheio, mas a tal da comparação…é foda!
Ela desperta sentimentos mesquinhos, obstrui a visão do que temos de bom e positivo e traz como prioridade o quão inferior somos às vidas , fake ou não, que parecem seguir um curso perfeito , traçado por um destino sacana que esqueceu de desenhar direito o meu próprio destino; é um gozador esse moço.
Lembro do meu pai que, longe de ser perfeito , sempre acreditou em mim e me incentivou a ser feliz.
Mesmo tendo passado a maior parte da vida discordando dele em quase tudo, vi tardiamente que ele sempre me deu os melhores conselhos.
Antes de todas as grandes merdas e decisões mal tomadas; e nao foram poucas.
Profissionais, emocionais, financeiras… um talento nato para furadas!
Pena mesmo que sempre fui muito idiota e não escutava. Não escuto.
Não escuto nem minha consciência que me enlouquece ao me apontar diariamente que a responsável única por estar aqui, aos 50 anos, numa posição ridiculamente estática , sou eu.
É até engraçado mas acho realmente que não sou uma pessoa de muita sorte não.
Relacionamentos que não são exatamente ruins, são apenas “pouco”.
São “pouca coisa”.
Nos meus 40 anos, um tio do coração, queridíssimo, que me conhece desde sempre me falou:
“Te desejo muitas felicidades e que dê tudo certo, porque , Cristina minha filha, você não tem sorte.”
Isso foi bem engraçado.
E real.
10 anos se passaram…putz grila!
E tenho o dom terrível de demorar a tomar coragem.
Coragem de mudar.
Mudar qualquer coisa.
Até mudar a cor do esmalte é difícil.
Uso a mesma cor no cabelo, sem mudança, há 16 anos.
Pois é.
Estado perene de conformação absoluta.
Realizei que não tenho nenhum sonho realizado.
Nenhunzinho.
Nada.
Sou mãe e amo minha filha mas não foi um sonho: “Ahh quero ser mãe!”
Veio , aconteceu e foi maravilhoso. É maravilhoso.
Meu único acerto.
Mas sonho mesmo, dos escritos nas agendas da juventude, nada.
Nenhum.
E honestamente, duvido mesmo que a essa altura do campeonato vá realizar algum.
E de repente karma, reencarnação, destino – o gozador- , essas coisas existem mesmo.
Sei lá!
Vai saber.
Então ele está certo; meu irmão.
Viver feliz com suas escolhas e com sua vida é algo que hoje deve ser feito na intimidade, sem holofotes.
Livre dos frustrados e pessimistas que diante a sua própria covardia de encarar e sair do lugar, buscam o caminho mais fácil da autopiedade, de culpar seu azar e de viver se comparando miseravelmente.
Ainda me resta um humor refinado, que acha muita graça nos detalhes mais patéticos vividos no dia a dia mais bobo que se tem notícia e que se em tempos de outrora tinha as páginas de seus diários preenchidas em sua totalidade , hoje seriam páginas em branco clamando por uma novidade que fizesse a caneta sorrir.
Que venha.
Por Sandra Araujo
@sancris
Sobre este texto
Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.
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