Saúde Mental, Traumas e Disciplina
Fechado numa sala cinza… tudo em volta é cinzento… até eu… não sei que lugar é este… só sei que estou sozinho aqui… por mais que eu grite, minha voz ecoa no vazio e minha certeza de que jamais sairei deste lugar apenas se faz mais forte…
Tento chamar alguém… mas não consigo mais emitir ruído algum…
Nesse momento abro os olhos… olho ao redor… vejo minha esposa dormindo calmamente ao meu lado… os dois pequenos caçulas em suas caminhas amarelas…
Não… era apenas mais um sonho… sonho??? Eu sou muito “legal” mesmo de chamar essa desgraça de sonho… sonho nada…pesadelo violento… que me faz acreditar que sou prisioneiro eterno desse trauma que me acompanha…
Não faço ideia da última vez na qual dormi ( verbo inconjugável para mim ) e não fui acossado por essas peças que o inconsciente costuma pregar
Tento relaxar o corpo, esticado pelas câimbras que os pesadelos me fazem ter… respiro… olho mais uma vez para a placidez de todos que dormem ao meu redor e isso me traz uma sensação de certa paz
O caçula acorda… fala… pede peito para uma mãe que dorme exausta pelos dias repletos de demandas… ela da o peito mesmo sem abrir os olhos
Em pouco tempo já estamos os dois, o caçula e eu, despertos e de pé… escovo os dentes e desço com ele… a partir daí, são os muitos afazeres de uma casa azul e alegre… com suas nuances de beleza e singularidades
Faço o desjejum do pequeno… e depois pego o outro, que também é pequeno, mas não tanto quanto o primeiro… costumo dizer que já já será “fuzileiro”… uma forma de mostrar que cresce a cada dia
Mais uma pequena refeição… mas a mente tenta me trair… pensamentos ruins… a sensação de que algo terrível vai acontecer a qualquer momento
“Não é nada!” Forço-me a pensar
“É esse maldito transtorno de Estresse Pós Traumático forçando em cima de mim!”
Tento respirar… focar em respirar… aprendi isso há umas quatro décadas … sobre como a respiração controla muito da angústia e da ansiedade
“Respira, Sierra Mike!”
Aos poucos controlo os pensamentos… não há nada de errado ao meu redor no momento… apesar de estar sob o mais absoluto fogo cerrado que vem de várias direções… do lado de fora da Casa Azul
Muita maldade caminhando na minha direção… e, por ora, não posso reagir…
O corpo dói, mas não esqueço do plano que travei… mergulhar nos extremos dos exercícios físicos…
“É o que me salva!”
Mas meu corpo reluta… não quer sair de casa… não quer se colocar em movimento… correr, remar, levantar pesos… quer ficar quieto e distante
E então uma parte da mente assume o controle… ela não “pensa”… apenas faz o que precisa … assume a direção do cérebro e fala
“Vamos! Parar não faz parte do acordo!”
Acordo com quem?
Comigo mesmo… com minha capacidade de seguir mesmo quando a mente e o corpo simplesmente não desejam
Não… não é algo simples e eu não nasci com essa tal de disciplina conduzindo meus passos
Precisei de um pai severo e de passagens marcantes em mundos nos quais a maior parte dos homens não sobrevive
E foram muitas as passagens…
Também sou fruto de quem me ensinou a usar o corpo para defender meu espaço… agradeço a esses caras que começaram a participar da minha vida quando eu tinha nove anos
“Obrigado, mestres!”
Saio de casa absolutamente angustiado por deixar meu refúgio de paz da Casa Azul…
Já gostei muito de tudo por aqui… hoje eu simplesmente odeio… não há beleza natural da cidade que me faça achá-la “bacana”
Acabou… conheci suas entranhas e a hipocrisia das pessoas … fui exposto… eu me expus por que quis também
“Culpa minha… muito minha essa desgraça!”
Agora ando pelas ruas com a cabeça girando … controlando crises e crises de ansiedade e pânico causadas pelo TEPT
Sim… eu não queria estar nesta terra… de forma puramente geográfica…
Mas ela vem novamente rondar meus pensamentos…
“Quem?”
“A disciplina!”
Tenho que ter disciplina para entender impossibilidades e conviver com elas…
Chego para treinar… cumpro minhas rotinas… a sensação de força, tão mais subjetiva que os músculos artificialmente fabricados que pulam nas redes sociais, acaba por me envolver por completo
Nada é fácil
Nada cai do céu quando se trata de cuidar de doenças mentais… e do próprio corpo
É uma máquina … e sua durabilidade se encontra, via de regra, na forma como a manutenção é feita…
Vamos adiante…
O pior já passou… rotina cumprida… os sorrisos se tornam mais fáceis…
Quero chegar em casa para abraçar minha esposa… esse abraço é o que tenho de mais valioso na vida…
E esse amor é o que me mantém altivo e traz cores para os meus dias
“Minha Vida… meu eterno arco-íris!”
Recebo o abraço… o acolhimento…
Conversas sem fim debaixo de uma afinidade singular …
O amor pulsante de cultivar a família como se um jardim fosse…
Mais um dia
Não importa que novos pesadelos virão quando o sono chegar
A vida não permite a inércia
Hoo Yah!
Por Sandro Araújo
Sobre este texto
Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.
2 comentários
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Grande Sandro, como sempre textos incríveis, de situações pela qual não desejo a ninguém. Não sei se te conforta, mas você é um exemplo de superação, dedicação, disciplina e hombridade.
Por aqui sigo, muito melhor do que quando desabafei com você pelas redes sociais, mas sempre atento, para manutenção de uma melhora constante, lenta, mas, o mais importante, edificada em alicerces firmes. Um forte abraço.
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O TEPT deprime nosso humor deslustrando tudo ao redor, posso imaginar um vai e vem de memórias ruins à mercê de gatilhos sem controle algum…o que traz uma certa luz ao texto, a família, sempre contornando problemas secundários e levando discernimento aos piores pesadelos, uma tormenta com hora certa pra acabar, independente das travessuras do destino que possa levar uma decepção familiar, é “ali” que devemos nos balizar, ali onde os nossos são nossos de verdade.
Texto forte em nível de complexidade, contudo, gosto de viajar num mundo onde a alegria precisa ser adquirida e não gratuita – sempre vejo cores no amanhecer, são os novos dias que fortalecem as noites mal dormidas.
Forte no propósito do exercício, mente sã para outros dias de guerra.