QUAND UN JOUR QUELQU’UN A RÊVÉ
QUAND UN JOUR QUELQU’UN A RÊVÉ
(José Messias Xavier)
A velha casa resiste,
superou as imperfeições,
o abandono,
as ambições
e até o fogo, dizem os jornais.
Talvez um violão preenchesse
suas noites nos bons tempos;
ou um piano dedilhado a quatro mãos
à luz dos castiçais;
a cera morna escorrendo pelas pernas;
os gestos repletos de infinitude
e harmonia encantadora.
Mas os pecados já não contam,
nem o toque insistente no chão, que provoca
esses estados d’alma ausentes nos álbuns de família.
A velha casa é como se flutuasse soberana,
adornada por pássaros e insetos fugidios,
que constroem suas vidas
onde as moças suspiraram
junto às flores
e as mulheres esconderam
seus segredos,
nas frestas das árvores,
seduzidas em cetim.
Suas paredes, onde o cão afiou as unhas
e as crianças rascunharam seres impossíveis,
oferecem abrigo a quem lhe
confesse desespero
– há candura entre sobreviventes.
A velha casa geme ao vento frio,
quando seus ossos estalam
para assustar quem lhe despreze.
Ela é, pois, testemunha do que nos afronta,
da palavra não dita, do querer preso
em um gargalo de promessas,
da vida oculta por trás do que vestimos,
do caminhar sobre o relógio.
Não há sinetes nas chegadas,
ou acenos nas partidas.
Está alheia à teia de murmúrios
construída ao seu redor
para envolvê-la até que
– será possível? –
desabe em silêncio.
Sua exuberante decadência
é revelada pelos relâmpagos
em cordial cumplicidade
e devoção,
como a concessão de um dia a mais
após uma vida inteira.
E a ventania empresta voz
às lembranças,
que se convertem em nomes
sussurrados nas varandas,
endereçados nas cartas.
Não lhe importa se, de alguma esquina,
alguém acene ao vazio
e siga o perfume ausente.
A velha casa está alheia
às especiarias vendidas na calçada
pelas novas baianas
de antigas histórias.
É desatenta às lendas,
que chegaram do Nordeste
no lombo da miséria.
Não sabe do cheiro do pastel
chinês,
que dribla a fome dos trabalhadores
com pressa e sem dinheiro.
Não percebe o sorriso do
rapaz do gelo
nos dias de calor.
Não lhe incomodam as guerras,
as fúrias dos homens,
o marulhar das notícias de longínquos oceanos.
Mas é sensível às quinquilharias
amontoadas ao redor;
às varejeiras, que farejam detritos;
e à própria decomposição
dos retratos,
ainda que
lenta,
inodora,
inaudível.
Há, contudo, uma manhã oculta
em seus jardins, a que recolhe
pedaços da noite
e une o orvalho, a lágrima
e a gota de suor
para torná-los âmbar,
aprisionar o tempo
e convertê-lo em sonhos
– eis sua armadilha.
(Poema escolhido, em 2023, para o primeiro lugar pelo júri técnico da Mostra Olhares Sobre o Patrimônio Fluminense, que integra a Semana Fluminense do Patrimônio (SFP), evento anual, organizado por instituições científicas e culturais do Estado do Rio de Janeiro. O título do poema alude à inscrição Notre Rêve, na sacada da Casa Norival de Freitas, em Niterói.)
Sobre este texto
Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.
2 comentários
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Comecei a ler e de repente eu estava na casa…" vendo" o que eu lia com um misto de nostalgia, pureza, histórias vividas ali…é tão mágico vivenciar um texto tão poético…
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Parabéns!! Lindo poema!