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QUAND UN JOUR QUELQU’UN A RÊVÉ

Por Pensamentos Imperfeitos Publicado em 31 de dezembro de 2024 Atualizado em 18 de agosto de 2026 2 min de leitura

QUAND UN JOUR QUELQU’UN A RÊVÉ

(José Messias Xavier)

A velha casa resiste,

superou as imperfeições,

o abandono,

as ambições

e até o fogo, dizem os jornais.

Talvez um violão preenchesse 

suas noites nos bons tempos;

ou um piano dedilhado a quatro mãos

à luz dos castiçais;

a cera morna escorrendo pelas pernas;

os gestos repletos de infinitude

e harmonia encantadora.

Mas os pecados já não contam,

nem o toque insistente no chão, que provoca

esses estados d’alma ausentes nos álbuns de família.

A velha casa é como se flutuasse soberana,

adornada por pássaros e insetos fugidios,

que constroem suas vidas

onde as moças suspiraram 

junto às flores

e as mulheres esconderam 

seus segredos,

nas frestas das árvores, 

seduzidas em cetim.

Suas paredes, onde o cão afiou as unhas

e as crianças rascunharam seres impossíveis,

oferecem abrigo a quem lhe 

confesse desespero

– há candura entre sobreviventes.

A velha casa geme ao vento frio,

quando seus ossos estalam

para assustar quem lhe despreze.

Ela é, pois, testemunha do que nos afronta,

da palavra não dita, do querer preso 

em um gargalo de promessas,

da vida oculta por trás do que vestimos, 

do caminhar sobre o relógio.

Não há sinetes nas chegadas,

ou acenos nas partidas.

Está alheia à teia de murmúrios

construída ao seu redor

para envolvê-la até que 

– será possível? –

desabe em silêncio.

Sua exuberante decadência

é revelada pelos relâmpagos

em cordial cumplicidade

e devoção,

como a concessão de um dia a mais 

após uma vida inteira.

E a ventania empresta voz

às lembranças, 

que se convertem em nomes

sussurrados nas varandas,

endereçados nas cartas.

Não lhe importa se, de alguma esquina,

alguém acene ao vazio

e siga o perfume ausente.

A velha casa está alheia

às especiarias vendidas na calçada

pelas novas baianas

de antigas histórias.

É desatenta às lendas,

que chegaram do Nordeste 

no lombo da miséria.

Não sabe do cheiro do pastel

chinês,

que dribla a fome dos trabalhadores

com pressa e sem dinheiro.

Não percebe o sorriso do

rapaz do gelo

nos dias de calor.

Não lhe incomodam as guerras,

as fúrias dos homens,

o marulhar das notícias de longínquos oceanos.

Mas é sensível às quinquilharias

amontoadas ao redor;

às varejeiras, que farejam detritos;

e à própria decomposição

dos retratos,

ainda que ​

lenta, 

inodora,

inaudível.

Há, contudo, uma manhã oculta 

em seus jardins, a que recolhe 

pedaços da noite

e une o orvalho, a lágrima 

e a gota de suor

para torná-los âmbar,

aprisionar o tempo

e convertê-lo em sonhos

– eis sua armadilha.

(Poema escolhido, em 2023, para o primeiro lugar pelo júri técnico da Mostra Olhares Sobre o Patrimônio Fluminense, que integra a Semana Fluminense do Patrimônio (SFP), evento anual, organizado por instituições científicas e culturais do Estado do Rio de Janeiro. O título do poema alude à inscrição Notre Rêve, na sacada da Casa Norival de Freitas, em Niterói.)

Sobre este texto

Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.

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Sobre o autor

Pensamentos Imperfeitos

Escritor e cronista

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2 comentários

  1. Comecei a ler e de repente eu estava na casa…" vendo" o que eu lia com um misto de nostalgia, pureza, histórias vividas ali…é tão mágico vivenciar um texto tão poético…

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