A equipe era composta por quatro policiais federais. A missão era, de certo modo, simples. Proceder a entrega de uma intimação em uma área residencial de classe média, da cidade do Rio de Janeiro. Apesar da aparente facilidade, os quatro federais, como estavam usando viatura ostensiva, utilizavam o que havia de melhor em termos de armamento. Três fuzis HK e uma submetralhadora MP-5, do mesmo fabricante, além das pistolas Glock 9 mm, do próprio Departamento de Polícia Federal.
Após breves consultas ao Guia de Ruas da cidade, encontraram a rua sem muita dificuldade. Logo, trafegavam pela via em marcha reduzida, tentando localizar a casa onde residia a pessoa que seria intimada. A descontração e a tranquilidade eram perceptíveis dentro da viatura.
Quando o vidro traseiro da Nissan ostensiva fez-se em pedaços, os quatro não tiveram muito tempo para pensar no que aconteceu. Jáder, o Agente que pilotava a viatura, fez uma manobra violenta, jogando o carrro para a direita da rua e acelerando, tentando visualizar a saída daquela via estreita. Viram o grupo de marginais surgir logo à frente deles, a pouco mais de trinta metros, ao mesmo tempo em que os disparos começaram a ser efetuados, partindo da mesma direção de onde saiu o primeiro tiro, que quebrou o vidro. A aterradora constatação era simples…estavam cercados, sob fogo, às quatro horas da tarde em uma rua residencial, a uma distância considerável da área de risco mais próxima.
Saíram da viatura, que àquelas alturas já se encontrava com várias perfurações de 7.62 e buscaram se posicionar de forma a se proteger do fogo dos bandidos. O policial mais antigo, que era o APF Serra, tentava fazer contato com a Superintendência Regional, mais precisamente com a Delegacia de Dia, para comunicar o fato e obter ajuda, mas o sinal para a operadora de celular que utilizava era baixíssimo naquela região. No auge do desespero, com pedaços do vidro da Nissan voando para todos os lados, ligou para o telefone de emergência 190 e chamou a Polícia Militar.
Para aumentar ainda mais o terror, o novato da equipe, o Agente de Polícia Federal Tarso levou um tiro na perna, mais precisamente na canela, que destroçou sua tíbia, fazendo-o urrar com a dor extrema que passou a sentir. Com pouca munição para sustentar uma posição de defesa por muito tempo, os policiais faziam o que podiam, com a esperança de começar a ouvir logo as sirenes dos colegas da PM. Infelizmente, os ruídos que aumentavam de intensidade eram os disparos de fuzil, feitos pelos cinco bandidos que dominavam as saídas da rua. Dois de um lado e três do outro.
No ápice do desepero, o Agente Federal Nilmar, na Polícia há 6 anos, não se conteve e começou a vomitar. Era a perda total do controle sobre o pavor que sentia. A proximidade da morte fazia com que os quatro começassem a exalar o odor característico do medo, sentindo um gosto indescritivelmente terrível em suas bocas. Segundo moradores da rua que acompanharam tudo de dentro de suas casas, os marginais pareciam brincar com os policiais, pois riam e se divertiam com o desespero, que era visível. Já estavam tão perto dos federais, que poderiam matar os quatro rapidamente, se quisessem. Mas preferiram brincar com aquelas vidas. Estava claro que queriam os tiras vivos…desejavam a tortura, a dor, os pedidos de misericórdia… Sorrisos sádicos estampavam aqueles rostos jovens, que optaram pela vida criminosa, enquanto se aproximavam devagar dos policiais.
E foi com um sorriso psicótico no rosto, que um deles, que estava no início da rua, de onde partiu o primeiro tiro, teve a cabeça estourada por um disparo de 45. Mal o bandido caiu, os outros quatro pararam por uma fração de segundo para identificar o que aconteceu. Foi a fração de segundo necessária para outro marginal ver seu próprio peito explodir com a potência do projétil da Glock 45 que era disparada de forma cirúrgica, por um indivíduo vestido de preto, com o rosto totalmente pintado da mesma cor, que pilotava uma motocicleta de grande cilindrada, em alta velocidade, aproximando-se da entrada da rua.
Logo, os marginais esqueceram os policiais federais e passaram a fazer fogo sobre a estranha figura, que àquelas alturas já havia parado a motocicleta e tomado para si o fuzil que um dos bandidos mortos carregava. Alheio aos tiros, diante do olhar incrédulos dos tiras que tentavam se abrigar ao lado da viatura, a negra figura deslocava-se em posição tática, com os pés executando uma espécie de “mata borrão”, totalmente equilibrado e atirando na direção dos bandidos, que pareciam ter tomado para si todo o terror que dominava, há pouco, os policiais encurralados.
O terceiro marginal caiu quando o projétil 7.62 entrou em seu olho direito, deixando um rombo gigantesco na parte de trás da cabeça. Nesse momento, os outros dois desistiram do combate. Eles desistiram…mas a indivíduo vestido de negro não. Com uma precisão típica de quem domina a arte de atirar, acertou os dois criminosos, com disparos certeiros. Ambos desabaram, quase que simultaneamente, com tiros na nuca, enquanto tentava fugir do local.
Após uma rápida olhada ao redor e para as extremidades da rua, o estranho indivíduo voltou-se para os policiais federais, que se apressavam em dar alguma assistência ao Agente Tarso, que chorava de dor, com a tíbia partida ao meio. Acenou para os federais para que eles colocassem o ferido na viatura e saíssem dali o quanto antes, enquanto ele mesmo observava atentamente as entradas daquela via pública. Ao mesmo tempo, dirigia-se cautelosamente para o local onde sua moto esperava por ele. Quando o motor da viatura totalmente perfurada por tiros de fuzil foi acionado, o ronco da motocicleta subiu e a figura vestida de negro desaparaceu da mesma forma que surgiu. Simplesmente do meio do nada.
Dentro do automóvel da Polícia, o silêncio só não era total por conta dos gemidos de dor do policial ferido. Os outros, guardavam um silencio ensurdecedor. Sabiam que tinham sido salvos por um Anjo…Uma lenda com quem o Rio de Janeiro aprendeu a contar em seus momentos de maior desespero…Na Superintendência, em meio ao tumulto causado pela chagada da viatura com o policial ferido, todos queriam saber detalhes, queriam ouvir a história das bocas dos policiais, que foram salvos por aquele que todos na cidade aprenderam a chamar de Anjo da Noite.
Que belo trecho! Uma sinfonia, diria! hauahahau