Polícia: Quando a dor espiritual é mais forte que a razão.
Amigos,
Leitores eventuais,
Acompanhei, assim como vocês, a notícia do suicídio de um policial federal em Rondônia. Não seria fácil para mim, expressar com palavras a dor que sinto com um fato como esse. Não faz muito tempo, acho que há uns cinco anos, recebi a incumbência de dar notícia semelhante à família de outro Papa Fox, que residia na mesma cidade que eu, e encontrou fim semelhante ao do policial de Rondônia, também em algum rincão deste país continente.
Ao longo dos quase quinze anos que passei no DPF, acompanhei a evolução ( ou seria involução? ) psicológica de muitos colegas. Alguns, infelizmente, acabaram por ter a trágica morte por suicídio, ainda que pesassem sobre eles todos os indícios de que tal fato poderia acontecer. Eu, particularmente, acho preocupante demais. E a minha preocupação acaba sendo pelos policiais de todo o Brasil, de todas as polícias.
Penso que se um policial federal, cuja estrutura e salário são superiores aos da maioria absoluta das instituições policiais do país, não suporta a pressão e, muitas vezes, a desilusão e a desesperança que encontra em sua jornada, imagine um policial militar, muitas vezes mal pago, sem teto, alocado em áreas dominadas pelo crime e concebido para ser um mero “cão de guarda” da classe média. Muitos, realmente, acabam sucumbindo à tristeza que facilmente surge no cotidiano desses profissionais.
A mesma sociedade que cobra atitude dos “tiras”, é capaz de criticá-los duramente quando vê seus interesses comprometidos. Comum é o policial ouvir que tem mais é que matar os soldados do tráfico, que atuam nas comunidades carentes. Mas se o traficante for de classe média, é porque sofreu algum desvio de personalidade, é um desequilibrado, um doente, e até mesmo um “pobre coitado”. Se o tira trata com dignidade o soldado é um molenga, se é duro com o playboyzinho é torturador.
A sociedade totalmente corrompida que é servida pela polícia, é capaz das maiores atrocidades morais. Certa vez eu estava na sala de espera de um laboratório de análises clínicas, quando a TV noticiou que um PM havia encontrado uma bolsa com uma certa quantia e acabou por devolvê-la à sua dona com todo o dinheiro. Atrás de mim, um casal de classe média comentou entre eles que o PM era burro demais. “Se é comigo…tchau e benção!”
Diante de um quadro social como este e ainda sujeito às agruras internas, que não são poucas em nenhuma das polícias do Brasil e do mundo, é fácil assistir a queda emocional de grande parte das corporações. Processos disciplinares, assédio moral, punições desmedidas, regimes insensatos e outros fatos comuns no dia a dia da tiragem, acabam por destruir a auto-estima de muitos. E com o agravante disso tudo não ser levado em consideração, da forma que deveria, por muitas administrações responsáveis pela segurança pública.
Estudos comprovam que a atividade policial é a mais estressante do mundo. O suicídio entre policiais não é um fenômeno tupiniquim. Muito pelo contrário. Com o avançar do tempo, tem se tornado cada vez mais comum o sepultamento de policiais sem honrarias que teria se tivesse tombado em confronto. É uma triste realidade.
Apenas a presença firme da família e uma constante e perseverante fé em Deus, podem guardar os habitantes do Universo Policial dos mergulhos no mar escuro da depressão. Eu mesmo passei por isso…e sei bem como é difícil colocar a cabeça para fora para respirar novamente.
Escrevi este texto, para que reflitam…Jamais para desestimulá-los. Estejam preparados. Pesem bem as coisas. Cubram-se com o poderoso escudo da fé em Deus e abracem suas famílias para que tenham nela a segurança de que irão precisar. Todos nós passamos ou passaremos por grandes tormentas algum dia. O que fará a diferença é o que levaremos como equipamento de salvatagem no meio dessas inevitáveis tempestades.
Muita paz a todos.
Sobre este texto
Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.
4 comentários
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Triste realidade.. tava vendo um vídeo no youtube outro dia de um exemplo do estado psicológico crítico que pode chegar um policial devido aos problemas citados por você, Sandro
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Sandro, lhe enviei um email a respeito de seus livros.Estou interessados em adquirí-los.Aguardo retorno. Um abraço Lucas A.
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sandro,
se um dia por acaso eu conseguir entrar na PF, quanto tempo geralmente um agente fica na fronteira ?
todos os agentes vao trabalhar para a fronteira ?
Sou do sul, e lógico, gostaria de ficar por aqui mesmo.
é dificil depois de conseguir transferencia para regiao proximo a minha cidade (curitiba) ?
acho que trabalhar em fronteira, nao é facil mesmo.
muito obrigado
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