Policia Federal:Cronicas de uma viagem ao inferno. II
problemas de ordem pessoal fizeram com que meu sono, já debilitado desde sempre
fosse adiado de forma extrema. Mas jamais esperei que fosse acordar como
acordei.
manhã. “Quem poderia ser?” perguntei mentalmente. Dei um salto da cama,
coloquei uma bermuda e corri para abrir a porta. Às vezes meu pai batia na
porta. Fiquei preocupado demais.
a porta foi enorme. Deparei-me com um dos zeladores do condomínio onde eu
morava há mais de 20 anos com minha família, com mais quatro policiais
federais, vestidos de forma operacional e veladamente com as mãos sobre os
coldres. Rapidamente o líder do grupo se identificou como delegado e informou
que havia um mandado de busca e apreensão contra mim. Ainda atordoado, abri a
porta totalmente, convidando-os para entrar, quase ao mesmo tempo em que ligava
para um amigo advogado que morava no 13º andar do mesmo bloco que eu.
Precisava, no mínimo, de uma testemunha além do assustado zelador.
deles logo perguntou onde estava a minha arma funcional, de propriedade do
Departamento. Mostrei-a para ele, que imediatamente retirou o carregador e a
desmuniciou totalmente. O delegado, que
disse pertencer aos quadros da Divisão de Inteligência, informou que tudo
aquilo era por conta de uma operação de nome Halloween, que visava desarticular
uma quadrilha que explorava máquinas caça-níqueis. Estranhei muito, uma vez que
eu já trabalhava na área de Imigração há tempos, sendo impossível prestar
qualquer tipo de apoio logístico a qualquer operador de maquinetas. Mas, enfim,
já que estavam ali, eu deveria dar todo o apoio.
um HD que era do computador dos meus três filhos e meu notebook. Nada em termos
de documentos foi encontrado. Nem dinheiro. Nem qualquer outra coisa. Meus
filhos acordaram aos poucos. A mais velha tinha que ir para a escola. O s
outros dois estudavam à tarde, mas estranharam aquela movimentação no
apartamento diminuto, de 48 m² onde nós cinco morávamos. Minha esposa,
atordoada, achava que era algo sem maior importância, quando o chefe da equipe
informou que havia um mandado de prisão preventiva em meu desfavor. Senti o
chão desaparecer sob os meus pés.
Eu pedi para tomar banho, o que fiz com um policial na porta do box. Minha
mulher ainda não acreditava. Eu estava sendo preso e nem sabia por que.
Terminei o banho, com lágrimas nos olhos. Vesti-me. Beijei os meninos e minha
esposa.
Desci pelo elevador cercado pelos quatro, que usavam um carro descaracterizado,
mas sem algemas. Mas de nada adiantava. Todos os moradores daquele prédio onde
eu morava desde 1991 já sabiam que eu estava saindo preso.
silêncio até a Superintendência Regional na Praça Mauá, Rio de Janeiro. Colegas
de longa data, observavam incrédulos, eu ser conduzido preso até uma sala na Área
de Inteligência. Sentei, em um sofá. Vi mais três policiais federais presos.
Perguntei se eles sabiam especificamente o porque daquilo tudo. Disseram que
sabiam tanto quanto eu. Ao longo da manhã, uma romaria de policias se fez presente
para prestar solidariedade e renovar os
votos de confiança na minha conduta. Mas eu só conseguia chorar. Compulsivamente.
Chorei como uma criança…percebia que estava sendo acusado de algo,
simplesmente inviável tecnicamente, de ter sido feito por mim. Acusado de
enriquecimento ilícito. Eu que nunca tive um único bem sequer…eu que sempre
que precisei de mais dinheiro que o meu salário oferecia, dava aulas de Física
e Matemática. Eu que sempre investi tudo nos meus filhos. Não…aquilo não
podia ser verdade.
olhos na esperança daquele pesadelo se desmaterializar e a vida voltar ao normal.
Mas nada disso aconteceu. O dia foi passando. Ninguém da Polícia apareceu para
perguntar nada ou dar qualquer outra satisfação. Fiquei ali o dia inteiro. Os
advogados do Sindicato apareceram. O meu amigo advogado que serviu de
testemunha apareceu. E minha mulher surgiu para passar todo o tempo comigo.
foi feita. Simplesmente porque naquele dia 25 de Novembro de 2010, começavam os
preparativos para a tomada do Complexo do Alemão. A fuga dos bandidos correndo,
a movimentação dos policiais, acabou por desviar os olhares de nós. Mas isso
não era suficiente para mim.
própria instituição. Que tanto defendi nesse tempo de carreira. Nada mais
apagaria isso da minha história.
Sobre este texto
Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.
8 comentários
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força e fé sempre pelo caminho!
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Sandro, vi no portal da transparencia que vc esta de licença desde esse fatídico 25/11/2010,sem previsão para o fim da licença.
Ocorrência de Afastamento/Licença: SIM (Data Início: 25/11/2010 – Data Fim: Não informada)Isso é verdade? O que houve?
Abraço, cara. Na torcida que tudo dê certo! -
??????
-
Meu caro Sandro, vi no site da Transparencia do governo federal que vc estaria licenciado desde esse dia 25/11/2010.
Procede essa informação? Vc está afastado de suas funções? Abraço e boa sorte! -
Estou de licença sim…Com vencimentos.
Minha situação funcional é regular. Apenas aguardando a finalização desta saga na qual me vi obrigado a protagonizar -
Sandrão! Passei aqui para te desejar uma ótima semana! Tudo de bom, meu caro.
-
Como terminou esta história da prisão…?
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07 DE JUL DE 2026 · 4 min de leitura
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09 DE JUN DE 2026 · 1 min de leitura
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Que isso Sandrão.
Por favor, não deixe seus seguidores/amigos/admiradores ansiosos. Acabe logo com isso. O que aconteceu? E o fim? Como tudo se resolveu?
Lembro que no dia da palestra lá em Deodoro, organizada pelo Edu, eu percebi que você é um policial nato. Daqueles que tem o sangue APF genuíno. Mas de fato parecia ter perdido a fé na profissão, o brilho da coisa. Pode ter sido impressão, claro…
Mas sinceramente, o que me deixa feliz é que no meio desta confusão, como você mencionou na primeira parte, tinha um plano de DEUS aí. E se o PAI está no barco, por mais difícil que seja, as coisas se resolvem.
No fim das contas eu te admiro mais ainda. Depois disso tudo você ainda mantém um olhar maduro sobre a profissão. Mesmo antes disso sempre frisou o lado não tão nobre do DPF…
Sinceramente, você é um exemplo pra mim. Depois disso tudo ainda mantém os pés no chão. Mantém os ideais não tão na moda de manter uma vida saúdável, longe das drogas. Segue no projeto geração careta. Mesmo com tudo, ao que parece se mantém ainda mais apegado com DEUS.
E mesmo com o problema cardíaco você deve estar bem, pois ainda outro dia estava tirando onda com a galera no face, quando postou a quilometragem que tinha corrido. rsrs
Nós caímos para levantarmos mais experientes e ainda mais fortes.
Você tem minha admiração. A vida segue cursos que não planejamos. Mas se eu realizar meu sonho de ser APF, seguirei a escola "Sandro Araujo", e vou te pertubar durante uns dias pegando conselhos.
Mas independentemente de eu me tornar APF ou não, tive a oportunidade de ver o que é um cara honrado. E seja onde estiver, adotarei este modo de vida.
Tenho certeza que deve ter sido o pior momento da sua vida. Mas mesmo assim, há uma legião de seguidores deste blog que querem fazer diferença. E você faz parte disso.
A saúde está restabelecida, a família é super bonita. E o principal: o PAI está no controle.
obrigado pela confiança em nós por contar isso tudo.
abção