Polícia Federal: Tristes Verdades
Depoimento de um Policial Federal: Desmotivação; Desesperança. Desespero!
20/07/2012
Fonte: Agência Sindipol/DF
A análise não é nova e não é de minha autoria. Foi afirmada em uma Comissão na Câmara dos Deputados: A Polícia Federal está longe de ser uma família. É uma instituição doente. Não é normal. Estamos freqüentando mais velórios dos chamados Colegas do que de nossos familiares após o curso normal da vida. São jovens perdidos em uma pseudo-carreira, que só conhecem como a mesma funciona quando é tarde demais.
Este ano completo 10 anos nesta casa. Tenho orgulho disso. Mas lamento muito também. Lamento ter sabido que um agente assassinou dois colegas sem motivo algum em Tabatinga, em setembro de 2002. Lamento caso semelhante quando um escrivão matou uma agente em Rondonópolis/MT. Ainda sinto a angústia e a surpresa ao saber que meu amigo Maciel, companheiro de missão em Rondônia, atirou contra a própria boca.
A tragédia não se resume a estes casos. Rapidamente lembro que, em Rio Branco/AC, um agente abreviou sua história na véspera de um dia de festa: 30 de dezembro de 2003. Um papi encharcou o chão da SR/DF de sangue em 2006. Em Rondônia, em curto espaço de tempo, dois policiais federais cometeram o mesmo ato: um perito em 2009 e um agente em 2011. No Rio, perdemos o Marcelo e a Angelina.
Agora, após perdermos o APF Tapajós neste crime covarde, recebo a notícia de que um colega se matou nesta quinta-feira (19). Um escrivão da PF que decidiu abreviar a própria vida – Fernando.
Perderam as contas? Em que momento ouvimos nos corredores algum seminário que seja para discutir o assunto? Acompanhamento dos Policiais? Tratamento? São anos de inércia neste sentido. Entra DG, sai DG e nada que possa significar mais atenção à saúde psicológica do servidor é apresentado como solução. Pelo contrário. Apenas recrudescimento das relações de trabalho. Pressão. Abusos. Assédios. Punição. Aos ditos “fracos”, o rótulo e o preconceito institucional.
Pior; negam acesso às pesquisadoras da UNB para levantamento sobre o nosso combalido ambiente de trabalho e descumprem, na cara do MJ e da Secretaria de Direitos Humanos, Portaria determinando o cumprimento de várias garantias e direitos dos Policiais Federais.
Sobre os mortos, costumamos ouvir apenas o silêncio (a não ser que câmeras de TV estejam a postos). Ainda tenho um pequena esperança em que, em futuro próximo, um verdadeiro gestor possa apresentar um projeto, que não seja megalomaníaco como o PF 2022, ou que não se resuma a apenas torcer para o tempo passar e assumir a próxima adidância vaga. O grito entalado é: NÃO SOMOS MERAS MATRÍCULAS NO CADASTRO DE PESSOAL.
A todos nós que sofremos as consequências de uma legislação ultrapassada e que permite que uma dita autoridade policial instaure uma sindicância apenas porque um policial não voltou até a delegacia para abrir sua sala e pegar a arma que ele esqueceu, não basta fechar os olhos e tentar esquecer cada injustiça a que somos submetidos.
Em nome de cada vida perdida no DPF por falta de apoio, acompanhamento psicológico, profissionalismo, solidariedade, humanidade temos que reivindicar melhores relações pessoais na nossa atividade diuturna. Temos que exigir condições de trabalho dignas, salutares e humanas.
É duro admitir, mas ultimamente o divã do policial federal tem sido apenas o apoio de cada sindicato (jurídico ou psicológico) e de seus familiares.
Por Flávio Werneck, e-mail recebido anonimamente com adaptações.
Sobre este texto
Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.
5 comentários
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Querido PF, tuas palavras são claras verdades… Sinto sua dor. Sei como é difícil. Não se sinta só. Esta não é uma realidade apenas da Polícia Federal. Acredite, em todos os setores da sociedade encontramos falhas, injustiças e violências, principalmente psicológicas… Seja na área da segurança, educação, saúde… Muitas tristezas… Para os colegas que partiram prematuramente restam saudades… e muita admiração pela luta que desempenharam arduamente todos os dias. Que Deus os ampare onde quer que estejam. São heróis da pátria, como você que nos trouxe seu depoimento com muita bravura! Obrigada. Acredite, não há fracos na PF. Há Guerreiros e Guerreiras!
Deus ilumine teus passos e te proteja sempre.
Abraços,
e mais uma vez obrigada. -
O que vc acha que acontece para que tantos suicidios estejam ocorrendo? Qual a doença da polícia?
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Caríssima, deve rever sua palavras… Suicídio não é "uma doença da polícia" e sim da sociedade. O que aconteceu foram casos isolados, que lamento muito e RESPEITO. Não generalize, pois há muitos PFs na batalha. O que verifica-se é a necessidade gritante de mudanças para melhores condições de trabalho para os nossos heróis. Eis o motivo da greve, que apoio muito…
Ser policial é uma profissão para poucos. É muito fácil falar de algo que não faz parte do seu cotidiano, difícil é encarar a realidade, vivenciar na pele todos os dias, por isso reflita bem antes de jogar palavras ao vento… -
Estou fazendo pesquisas para criar um juizo do que me aguarda caso seja aprovado no certame de 2014. Li varios relatos, alguns tao triestes igauis a este, porém, como vc mesmo disse no texto, caso isolados se comparado com o grande número de herois (sim tambem lhes consideros assim), do qual quero muito fazer parte. Sei da importancia desta e das outras forças que mantem este país em pé lhes cabem.
Notei que suas palavras são de 2012, espero profundamente, mesmo que não venha fazer parte dessa família, que a realidade exposta acima tenha melhorado! Que embora as vidas abreviadas não mais são recuperada, que os descaso relatado tenha ficado numa fase ruim do DPF, e pq nao das demais corporacoes. Forte abraco! Pode ser que nao valha nada, mas lembre-se que existe muita gente que admira e acredita no trabalho honesto e horando de vcs!
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Infelizmente, para aumentar a estatística, esqueceu de lembrar da morte de dois APFs em Tabatinga (lancha sem blindagem) acho q em 2010: Lobo e Matsunaga, este que tinha acabado de entrar no DPF em 2009.