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Policia Federal: Crônicas de uma viagem ao inferno – V

Por Pensamentos Imperfeitos Publicado em 29 de agosto de 2012 2 min de leitura
As palavras não me vinham à boca.
Não tinha vontade de nada. Comer nem passava pela minha cabeça. Lia
incessantemente a bíblia, preparando-me para o meu batismo. Esse mesmo batismo
que eu sabia que não teria mais. Não naquele domingo dia 28. Teria que ser
depois.
Quando a noite cai em um presídio
de segurança máxima, sutilmente, uma atmosfera de terror domina o ambiente. Os
internos caminham de um lado para o outro em suas celas. Alguns jogam cartas.
Outros assistem TV. O ócio é algo aterrorizante. A falta de espaço também.
O banheiro da minha cela tinha um
vaso, um chuveiro improvisado e uma pia. Cimento bruto no chão. A porta era uma
cortina. No canto da cela uma “geladeira”. Uma caixa de isopor, onde os habitantes
do local guardavam seus perecíveis. Leite, chá gelado. Coisas assim. Confesso
que nunca mais comi bolinhos do tipo “Ana Maria”. Fiquei com aquilo na cabeça.
Foi a primeira coisa que me serviram por “conta da casa”.
No avançar da noite, a loucura
implícita começa a brotar. Gritos horríveis ecoam pelas galerias. Alguns
internos batem incessantemente nas grades das celas. É ambiente de filme de
terror. Coisa para enlouquecer o mais centrado dos homens. E o processo de
enlouquecimento é rápido e certeiro. Uma hora ou um ano. Tanto faz. Se você
está preso em uma penitenciária de segurança máxima, vai enlouquecer mesmo. Se
não souber porque está preso…a loucura será eterna.
Pensava de forma febril na minha
família. Meus filhos. Do orgulho que eles pareciam ter de mim. O que seria
disso? Como eles estariam ali, sem mim? Eu nunca tive bens. Não tinha dinheiro
guardado e fui informado que a primeira coisa que o Departamento de Polícia
Federal faria seria cortar meu salário. Pensava em como minha família
sobreviveria. Coisas simples mesmo, como comer, se deslocar ou comprar uma
camiseta da escola.
Mas eu tinha que ter FÉ…Aquela
era a minha realidade naquele momento. Pedi muito a Deus que elucidasse para
mim, a razão da minha prisão. Eu precisava saber o que eu fiz. Passei até mesmo
a acreditar que eu devia ter feito algo de muito errado.
Respirei. Li a bíblia. Até onde
aguentei. Pedi paciência a Deus. Só assim.

Sobre este texto

Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.

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Sobre o autor

Pensamentos Imperfeitos

Escritor e cronista

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4 comentários

  1. Que que isso..não tem nem palavras pra tudo isso. Meu coração tá a mil, desolado com essa situação. Me lembro que uma vez vi um texto seu dizendo que tudo tinha terminado, tipo um a Deus à PF. Não sabia o porquê daquilo. Então creio que toda essa confusão tenha algo a ver. Comprei o seu segundo livro e até troquei alguns email contigo e, pelo pouco do contato, vi um pouco que você é uma pessoa maravilhosa e que não tem lógica tudo isso. Cara, só Deus mesmo. Como dizem, Deus só dá fortes atribulações pra quem ele sabe que aguenta e você é assim: pessoa de boa índole e bom coração; humilde; um cara de fé. Saiba que todos os seus admiradores sempre estaremos contigo. Força e fé eternas!
    Ass.: Júnior

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