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Policia Federal: Crônicas de uma viagem ao inferno. – IV

Por Pensamentos Imperfeitos Publicado em 29 de agosto de 2012 3 min de leitura
26 de Novembro de 2010
Dormi minutos espaçados. Jamais
continuamente. O calor era enorme. Estávamos prestes a entrar no verão carioca
e Bangu sempre foi a região mais quente do Rio de Janeiro. Logo cedo, um
inspetor da SEAPE abre a cela para fazer a contagem dos presos. O concreto
oprime. É cinza para todo lado.
Aos poucos o interno mais antigo,
o policial civil chamado Gonçalves vai tentando nos fazer entender como
funcionam as coisas ali. O café era servido em uma enorme garrafa térmica, com
pães franceses colocados em uma caixa de isopor na entrada da galeria. Tinhamos
que sair, ir a até lá e pegar essas coisas.
Minhas forças estavam quase
zeradas. Foi impossível pegar algo. Já estava há muito mais de 24 horas sem
comer. Ao longo da manhã soubemos que aquele dia, sexta-feira, era dia de visita
para os policiais presos. Tivemos também a informação de que nossas esposas
estavam tentando nos visitar. O que foi em vão. A burocracia penitenciária
impediu que isso acontecesse.
Eu estava meio morto ali. Inerte.
Paralisado. Sem vontades. Passei o dia quase o dia inteiro deitado. Lia a
bíblia compulsivamente. Era só o que eu fazia. Acreditava que a qualquer
momento, alguém poderia aparecer na porta e dizer: “Vamos embora, Sandro. Foi
tudo um grande engano.”  Mas nada disso
aconteceu.
Em um determinado momento, fui
chamado para uma visita de advogado. Era o Fernando Drumond, advogado do
sindicato. Nem ele sabia ainda o que estava acontecendo, pois ainda não tinha
tido acesso aos autos. Uma aberração. Estar preso sem saber exatamente porque.
Mas era isso. Exatamente isso. Até aquele momento, eu não fazia idéia das acusações
contra mim.
Em determinado momento do dia,
acho que era final de tarde. Difícil precisar as horas debaixo de tanto
concreto. Fui encher uma garrafa de água quando fui barrado no corredor por
três internos. Um deles bateu no meu ombro e me indagou:
– Qual é “cumpadi”? Quem é você??
Ergui lentamente os olhos para
eles. Mas acho que não havia vida nesses mesmos olhos. Então eles continuaram.
– Qual é a tua “mermão”? Tu é X9?
Ninguém que foi preso com você te conhece? Que história é essa?
Eu sorri de desgosto e respondi:
– Também não sei o que estou
fazendo aqui… gostaria muito de saber…
Nesse momento, um dos policiais
que havia sido preso na mesma operação apareceu dizendo que eu tinha entrado de
“bucha”, que eu não tinha nada, mas que também não era X9. Foi aí, que os meus “recepcionistas”
deram uma recuada. Segui até o bebedouro, enchi a garrafa, voltei para a cela e
lá permaneci, esperando aquele primeiro dia terminar. 

Sobre este texto

Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.

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Sobre o autor

Pensamentos Imperfeitos

Escritor e cronista

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6 comentários

  1. Ex-SD PM PI

    Sandrão, essa tua história já tá me deixando ansioso, cara.
    Me desgostei com a PM por muito menos que isso, sem ter sido preso injustamente.
    Ainda bem que vc já está livre da cela, mas o que tá acontecendo, vc tá respondendo a processo? Será que nunca esclareceram que isso foi um engano terrível?!
    Abraço e boa sorte, cara. Certamente a vida ainda vai te proporcionar muita coisa bacana, você vai ver! Fique com DEUS

  2. Varão que fornalha te jogaram… aguardo o proximo cap. da saga. Realmente isso é ser forjado no puro FOGO. Tenho percebido isso, ouvindo alguns que fazem pouco caso do meu interesse no DPF.Eu olho para o alto e digo SENHOR serei uma ferramenta tua nessa instituiçao. E creio que vc é parte dessa ferramenta. aquele abraco. Logan

  3. Sandro, estou angustiado em não saber o que realmente aconteceu. Você poderia escrever uns 3 textos por dia né, pois ficar esperando para ler a continuação só no dia seguinte tá me deixando maluco… Risos…. A primeira coisa que faço quando chego aqui é olhar seu site…
    Abração!

  4. Que isso Sandro!
    Li tudo pedindo a Deus para que fossem capítulos de um próximo livro seu, mas não são! To custando a acreditar.

    Que mundo é esse gente?!

    Força e fé em Deus guerreiro!

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