Policia Federal: Crônicas de uma viagem ao inferno – III
tempo de carreira ficaram por perto. Rondando, preocupados comigo. Eu não
conseguia comer nem beber nada. Ainda acreditava numa reviravolta, algum
reconhecimento desse erro grosseiro. Aliás, eu nem sabia bem que erro era
aquele. Ninguém apareceu para me dizer as razões daquilo tudo. Nada.
temia. Meu colega de turma, Mauro, responsável pela condução dos custodiados
apareceu para nos levar. Respirei fundo, abracei minha mulher, que foi de uma
força fora do comum, e saí daquela sala com a bolsa que havia trazido de casa.
Era uma quinta-feira. Mas eu tinha sempre a esperança de estar em casa no dia
seguinte.
muitos colegas comovidos. Alguns até mesmo com lágrimas nos olhos e entrei no
ônibus que nos conduziria até o complexo prisional de Bangu. Vi os vinte e
tantos presos na operação, teoricamente da mesma quadrilha. Eu não conhecia
nenhum deles. Absolutamente. Nenhum. Apenas os três policiais federais que
também foram presos. Isso apenas fez com
que meu desespero aumentasse. Afinal, por que eu estava naquele ônibus? Que dor
eu sentia. Que vergonha passar na frente de centenas de colegas, para entrar em
um ônibus de custodiados.
Já era quase noite, quando paramos no Instituto Médico Legal para o exame de
corpo de delito. Talvez, nessa história toda, o momento no qual me senti mais
humilhado. Entrar na sala do legista, baixar a calça, ficar de frente e de
costas… E ser dispensado. Voltei para o ônibus. Tentei apagar. Dormir.
Morrer. Queria tudo isso ao mesmo tempo. Não acreditava que estava indo para
Bangu, onde já havia deixado tantos.
fraqueza, pois não havia comido absolutamente nada o dia inteiro, dormi no
ônibus. Acordei diante de Bangu 8, onde eu estaria prisioneiro por um tempo
indeterminado. Descemos do ônibus. Formamos uma fila. Um longo tempo esperando
até que os inspetores da SEAPE conferissem toda a documentação. A maior parte
dos presos, de nível superior, iria para a ala especial. Eu e os outros 3
policiais federais, iríamos para a ala reservada a policiais.
recepção, onde o inspetor mandou que eu tirasse a camisa preta que usava. Ali
era proibido usar roupas escuras. Uma gritaria de boas vindas ecoava pelas
galerias. Ameaças. Achincalhes. Xingamentos diversos. A minha tristeza era tão
grande, que nem tive tempo de sentir medo. Mataria facilmente alguém com as
minhas próprias mãos. Sabia que meu corpo reagiria assim a qualquer sinal
extremo.
policiais. Meio que por instinto, cada um foi para uma cela. Fui para uma onde
havia apenas um interno. Seu nome era Gonçalves. Um homem bom. Evangélico e
tranquilo. Recebeu a mim e ao outro colega que entrou nessa mesma cela com
generosidade. Entrei, cumprimentei-o e sentei em uma banqueta. Fiquei estático.
E assim permaneci até o final da noite. Vários internos vieram dar as boas
vindas e saber as razões que nos levaram até lá. Meu silêncio causou certo
incômodo. Mas, efetivamente, eu não sabia minha participação naquilo tudo.
a leitura. Eu estava estudando há tempos. E tinha a certeza de que seria
batizado no próximo domingo.
alvenaria, deitei em silêncio e esperei. Ouvi os primeiros gritos. Grades sendo
batidas. Eram os sinais da loucura reinante ali. E eu, fazendo parte de tudo
Sobre este texto
Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.
3 comentários
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Nessas horas que eu penso, como eles poderiam fazer isso, vc servindo a quem serviu, colocando sua vida em risco pela vida do proximo, e nem uma satisfaçao do porque ser preso ? isso nao tem lógica…
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Poxa, Sandro, que situação constrangedora! Espero que os responsáveis por tudo isso sejam, de certo modo, penalizados. Não quero, nem de longe, passar pela experiência que você teve. Deus te abençoe sempre e te conduza por pastos verdejantes!
Moisés Oliveira.
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Você deve ter lido muito os livros de Paulo nesta hora (especialmente "Atos").
Eu não sei o final disso tudo, mas torço para a confiança dos colegas ter sido restabelecida.
E acho que você conseguiu ser batizado no domingo seguinte. Pelo primeiro post, presumo isto.
Mas realmente Sandro, que situação! Fica meio forçado dizer coisas sobre "lado bom" disso tudo, pois realment deve ter sido insuportável. Que bom que sabemos que durou pouco e que você está bem.
Imagino a volta para casa e família. Deve ter sido o momento em que você deu mais valor