Polícia e Segurança Pública: A guerra que perdemos…
Pensar Segurança Pública não é uma tarefa fácil…São conceitos desordenados, que precisam de um mínimo de orientação para que possam fazer sentido. Então, pensar Segurança, pensar Polícia é um belo exercício de persistência…pois pensar em algo impensável é muito complexo.
Da definição pura, com tendências claramente jurídicas temos que polícia é intervenção da autoridade, como atividade essencialmente preventiva das violações da lei, garantindo a ordem pública com os objetivos de evitar danos sociais e de reprimir a criminalidade.
Analisando friamente, percebemos que o termo “preventiva” está presente na definição. Então, havemos de supor que os operadores de segurança exercem a função de não-polícia, ou a negação do que deveria ser a atividade policial, uma vez que, na maioria esmagadora dos casos, a instituição policial é acionada de forma meramente reativa, sendo raros seus lampejos proativos.
Precisamos também ser sinceros, a ponto de perceber que evitar danos sociais não é bem a praia de nossas gloriosas forças policiais. Não porque falta vontade a seus integrantes. Tenho certeza absoluta que as instituições de segurança, em todas as esferas, têm em seus quadros uma grandiosa maioria de profissionais honestos e dedicados. O problema é que uma polícia cidadã custaria caro a determinados setores da sociedade civil, que acabaria acuada diante de suas próprias incoerências. Para a parcela dominante, que dorme tranqüila em seus bunkers, encasteladas em suas ilhas de segurança, a polícia deveria, simplesmente, trabalhar para ela. Como diria um antigo, honesto e quixotesco Delegado da Polícia Civil do Rio de Janeiro: “ A burguesia nos considera seus cães de guarda.”
É evidente o fracasso atual do ordenamento institucional da instituição polícia. E evidente será o fracasso futuro também, se determinados e cruciais aspectos não sofrerem mudanças estruturais contundentes.
Perguntamos incessantemente, montados em nossa própria coerência, que sentido há em uma polícia militarizada, em um país democrático (?), que se livrou da ditadura há algumas décadas?? Ou, ainda insistindo em uma polícia militar, porque não traçar uma linha que permita a esses homens, fornecer uma qualidade de vida decente aos seus familiares? Que esperança têm soldados e outros praças antigos, diante da falta de horizontes que se mostra tão clara, diante deles? Estudar? Para que? Que tipo de ascensão existe para esses elementos que combatem o crime na ponta?
Interessante se mostra a doutrina militar, para a sanha punitiva dos gestores da polícia. O conceito de cidadania passa distante de alguns quartéis, enquanto alguns oficiais e praças tentam, de forma literalmente amadora e quase heróica, mudar a realidade, interagindo de maneira construtiva com a sociedade que protegem.
As polícias judiciárias não estão muito mais próximas da sensatez que as ostensivas. As próprias taxas de resolução de ilícitos, mostradas há pouco por diversos meios de comunicação, explicitam a realidade. Em plena revolução da informação, revolução digital e tecnológica, nossos detetives se debatem com métodos arcaicos de investigação e total falta de celeridade, muito por conta do modelo que aí se apresenta.
Talvez o mal maior seja a vaidade de alguns. Essa vaidade é o que corrói os corações e entorpece as mentes, impedindo-as de ver o óbvio. A hora da mudança já passou. Estamos atrasados…estamos perdendo a guerra em várias frentes. Para cada caminhão de maconha que prendemos, outros tantos passam pelas fronteiras. Para cada quadrilha de assaltantes de banco que é desmantelada, inúmeros outros bandidos são recrutados para o mesmo serviço. É evidente que o despreparo traz entusiasmo para os inimigos reais do sistema, aqueles que querem abraçar o caminho fácil da criminalidade.
Muitos que lêem este blog têm o coração nobre, de quem realmente deseja mudar o panorama desolador que aí está. Mas o que poderão fazer, diante da letargia sistêmica que é quase palpável? Digam-me vocês… O QUE PRETENDEM?? Saibam que o quadro atual é de DESÂNIMO nas três esferas da instituição POLÍCIA…e esses desanimados, eram, pouco tempo antes de ostentar os distintivos, pessoas como vocês, loucos para entrar, fazer a diferença e mudar tudo.
Saibam, vocês…que eu os admiro. São o combustível que a Polícia precisa…Mas, infelizmente, o muito que há por fazer, em níveis estruturais, jamais dependerá da raça e vontade de todos vocês…
Sugestões???
Vamos debater isso…Daqui poderemos ganhar céus maiores, sermos ouvidos…
FALEM!!! ESCREVAM!!! Comecem a fazer a diferença que espero que farão, mesmo ANTES de mergulhar de cabeça no Universo Policial.
Sobre este texto
Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.
12 comentários
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Salve Sandrão!
Como você bem sabe, faço parte da massa que lê, admira e segue seu blog.
Também acredito que faço parte dos que estão aqui para contribuir na mudança dessa dura realidade que é a nossa polícia.
Confesso que já fui um cara mais animado, já tive mais "gás", querendo de qualquer forma entrar para a polícia… você sabe. O motivo do meu desanimo é começar a perceber como estava iludido com a grandeza da profissão, reconheço que, atualmente, a sociedade tem uma visão muito deturpada do que realmente é a polícia, e dessa forma a caracteriza como o limiar entre a criminalidade e a sociedade. Pensando dessa forma, se o policial é visto como a linha que divide a sociedade da criminalidade, onde ele se encontra no conjunto? Buscando uma solução lógica, acabei percebendo que na visão da sociedade, o policial se encontra na interseção do conjunto. Ou seja, estão a margem, tanto da sociedade quanto da criminalidade, a instituição policial e evidentemente os agentes que a regem. -
Temos que mudar a polícia mas também tem que mudar o judiciário e principalmente o ministério público. Nós policiais não temos apoio de ninguém. Temos que lutar contra os superiores que só pensam em suas carreiras, lutamos contra imprensa sensacionalista, lutamos realmente contra os bandidos e contra a hipocrisia da sociedade. Não vale apena. Hoje não me considero policial e sim servidor público militar.
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olha, certa vez, já há algum tempo, quando eu ainda era um adolescente que ouvia (e ainda ouço) legião urbana e queria mudar o mundo, ouvi de uma pessoa mais velha e mais madura que pra mudar o mundo não é preciso uma grande e avassaladora cisão de regime ou revolução, mas, sim, mudar a si mesmo. pensando nisso, acredito, hoje, que o desânimo dos policiais é reflexo da falta de atenção devida às instituições verdadeiramente importantes. tal desânimo não pode, nunca, se transformar em desilusão ou perda da paixão, pq, aí sim, aqueles que um dia tentaram fazer a diferença irão ser, nada mais, nada menos, do que aquilo que antes intentaram combater. vejo mudanças reais, hoje, e algumas no horizonte, amanhã. continuemos, pois, fazendo nossa indissociável parte na cadeia social, com força e fé sempre pelo caminho. abraços a todos. estamos juntos!!
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Mas, infelizmente, o muito que há por fazer, em níveis estruturais, jamais dependerá da raça e vontade de todos vocês…
então como vamos mudar algo que não depende da gente?
Li a reportagem do ministro da justiça, publicada na revista Istoé, e ele diz que haverá investimentos na construção de presídios e me pergunto: não seria muito mais vantajoso, barato, bom para a sociedade e para o Estado investir em políticas de capacitação para emprego, treinamento e oferta de oportunidades para jovens ao invés de construir presídios e aí sim o Estado estaria atuando preventivamente?
Ele fala também que a PF tem autonomia. Mas que autonomia é essa se há investigações, prisões, todo um circo apresentado a nós e no dia seguinte vemos que de nada adiantou. O judiciário anula o procedimento alegando falha da prórpia PF. Onde está a autonomia? Se, como ele diz, a justiça é pra todos então porque ela não vale pra todos?
Não sei com quem está a verdade, não sei se realmente ouve falha por parte da PF. Eu não estava lá.Mas na minha opinião, a opinião de quem está do lado de cá e se baseia no que lê e ouve, enquanto ouver um Legislativo preocupado em atuar para si próprio, apenas para os seus interesses e um Judiciário conivente e preocupado em isentar seus magistrados e impor a sua decisão visando proteger seus interesses, não há como mudar nada.
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Na minha visão, tecnicamente, o que cabe a um policial federal, é seu dever honrar.Fazer a sua parte.Servir de exemplo.É contagiante.
Dessa forma, afaga um pouco o sentimento de impotência que supostamente estaria por vir.Por outro lado, ao deparar-se com o descontentamento gradativo que ocorre com a maioria diante de vários fatores, torna-se uma incógnita.Busque a resposta na fé.Pensar que a sua parte é indiferente envolve à todos.Portanto, não acredite nisso.
Manter a motivação depois de um tempo trabalhando é algo que depende de cada um.Infelizmente, apostamos na esperança de que um dia pode mudar, apesar do abstrato.Poderia tentar caminhos mais efetivos para acalmar o furor de realmente fazer a diferença na sociedade.Penso que independente das adversidades é meu caminho ser PF.Ganharia menos dinheiro, o suficiente para sobreviver, e mesmo assim continuaria feliz em exercer essa bela profissão.Um abraço à todos.
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tudo cai nas costas da polícia…
tem que melhorar o judiciário…já é meio caminho andado…
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Valores morais. O fortalecimento do sistema está na família base de todo indivíduo. É no ambiente familiar(independente da composição)que se forma o caráter e a personalidade do indivíduo, são nas relações de correspondência mútua, onde deveria se experimentar importantes valores como a honestidade, a solidariedade, a lealdade, o afeto, o respeito, a fé, o espírito de corpo etc. A aqueles que vivenciam esses valores deveriam compartilhá-los, sempre. Pode parecer utopia mas já consiste no primeiro passo. E…
Sem levar em consideração aspectos étnicos ou religiosos, acredito que para fortalecimento das políticas de segurança pública, como já adotados por países de primeiro mundo, a descriminalização do aborto seria uma ferramenta fundamental para diminuição da criminalidade. Milhares de crianças são geradas sem qualquer condição básica de subsistência, onde na maoria das vezes, não irão vivenciar NENHUM dos valores citados acima. Estas mesmas crianças, que vieram ao mundo muitas vezes contrariando as circunstâncias, renegadas pelos pais e pela vida, são, em sua maioria absoluta, responsáveis pela lotação do sistema carcerário. Elas não têm opção, o sistema implicitamente impôe o fracasso atravès da falta de assistência e escolha, a começar pela imposição de gerar uma vida. Para nao estender demais, já tem literatura que apresenta dados sobre essa vertente da descriminalização do aborto com determinante na queda da criminalidade. Alguém interessando, estou as ordens. -
Caro Sandro, acompanho seu blog há tempos e confesso que você mudou minha credibilidade nas polícias que era nenhuma (e tenho motivos). depois de estudar as leis, conversar com policiais, acessar seu blog e ler a respeito, cheguei a conclusão que dependemos e muito de uma mudança geral do judiciario para aí sim verificar se contruimos prisões ou escolas.
que DEUS te abençoe.. -
Nossa, essa postagem foi realmente muito boa. Então, acreditando na idéia de fazer a diferença eu não acho que vou mudar o mundo, que vou revolucionar o sistema e tudo mais, eu acredito apenas que poderei fazer a minha parte, ser uma pequena luz em meio à escuridão, afinal, em que outra profissão você poderia revolucionar o mundo sozinho? Seja como professor ou policial estarei sempre muito orgulhoso de mim mesmo por estar fazendo a minha parte, por realmente fazer a diferença. Todavia, se me mandarem arriscar minha vida e ficar longe da família por algo em que compreendo estar totalmente errado, isso me destruirá por dentro, não nego isso.
Romulo -
Acho que apesar de fazer algumas simplificações, o filme Tropa de Elite 2 retrata um pouco dessa realidade que todos os policiais comentam. Como diria o Nascimento: "O inimigo agora é outro, e o buraco, meu amigo, é muito mais embaixo."
O primeiro passo é corrigir quem cuida da justiça (o cumprimento da lei). Este é, na minha opinião, o Poder com mais poder, se me entendem.
Por essas e outras que meu objetivo está se deslocando da carreira policial/executivo para a área que tem mais poder de influência na sociedade e nos meios públicos.
Falei demais… até logo.
SOPMod. -
Sandro, mandou bem pacas.
O OPF talvez nos ajude, e a sociedade, para tentar corrigir um pouco disso.
Por outro lado, parceiro, nós fazemos a nossa parte, né? As palestras sobre prevenção ao uso e abuso de drogas, a qual ministro com a ajuda de um ex-viciado, é um passo para o futuro.
Grande abraço, e que Deus nos ajude!
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Grande Sandro, a cada dia vocÊ nos presenteia com textos melhores para refletirmos. O Povo brasileiro não é capaz de voltar as manifestações dos caras pintadas, eu olho o problema atual na bolívia onde a população invadiu o aeroporto para evitar que levassem os índios para suas comunidades, no chile os estudantes lutam para melhorarem as verbas da educação e etc. O problema da nossa polícia é grave, como melhorar em um País que nao se previne, as coisas mudam quando acontecem problemas sérios. Como acreditar em um País onde os corruptos ficam impunes, o governo passa a mão na cabeça e um ladrão de galinha vai para cadeia por tentar alimentar os filhos.
Acho que a falta de uma guerra civil, de heróis que derramaram sangue por nós afeta muito. Esse é o meu modo de pensar.