Paz de Espírito…ítem raro para Policiais
Percebo o quanto pode ser difícil para muitos, talvez a maioria, viver cada dia com o espírito elevado, cuidando apenas de semear coisas boas, para esperar o futuro sem medo, com uma grande confiança no fato de seus atos passados, serem convertidos em coisas boas a cada dia que chega.
Kung Fu Tzu ( Confúcio ), a quem é atribuída a elaboração do Livro das Mutações, já dizia isso há muito mais de 2000 anos. Respirar com tranqüilidade, acompanhar os batimentos do coração do universo, consciente de que apenas uma vida repleta de atitudes responsáveis, que visem apenas o bem-estar do meio, será a chave para dias mais e mais tranqüilos.
Na atividade policial essa paz de espírito é a coisa mais difícil de obter. O próprio cotidiano dos policiais, já contribui para que suas mentes estejam voltadas, quase que o tempo inteiro, para o futuro, próximo ou distante. É a natureza da profissão…Missões em andamento, missões prestes a serem desencadeadas, prisões efetuadas, audiências…E no caso específico desta Polícia da qual faço parte, existem ainda outras coisas, ruins de se pensar, piores ainda por não ser possível vislumbrar mudanças a curto, médio ou mesmo longo prazo. Uma Polícia feita de tal forma, que parece uma engrenagem sem lubrificação. Grandes incoerências…Pense você, leitor eventual, que um policial federal atinge o ápice da carreira em menos de 15 anos. Depois disso, ficará o tempo que resta a ser trabalhado, sem o menor estímulo, sem a menor preocupação em se aprimorar, em se especializar para atingir patamares melhores.
Graças a Deus, fui agraciado com o convívio de Delegados do bem, pessoas boas e respeitosas, com uma boa e nada mesquinha visão deste Departamento de Polícia Federal. Apesar de respeitar muito a classe, acredito que, de maneira geral, até em outras instituições distintas da Polícia, o bacharelismo do Direito impera. Na minha cabeça, que se acostumou a pensar o mundo de forma simplista, é um tanto quanto inconcebível que um bacharel em Direito, às vezes recém saído da faculdade, tenha um leque de prerrogativas maiores que um indivíduo com doutorado em Química (por exemplo), que entrou no Departamento para um cargo diverso do de Delegado.
É óbvio que existem conceitos quase seculares, difíceis de mudar, até mesmo na sociedade, no que diz respeito à Polícia. Modernizar é complicado, a partir mesmo do inconsciente coletivo. O povo brasileiro nasceu acostumado às figuras, referências de poder. Capitão-Mor, Alcaide-Mor, ou seja lá o que for…os nossos Delegados não são “Mor”, mas a sociedade ainda não conseguirá se desvincular de uma figura da qual emana uma áurea de poder tão grande. Para a coletividade, o delegado ainda é o “cara que resolve, que prende, que intimida…pô, o cara é delegado…”.
E assim caminhamos…por isso comecei essas linhas falando de esquecer um pouco o futuro…existem coisas, que tem um ritmo diferente de mudança e conscientização. O mundo poderá mudar, modernizar-se…Mas aqui, na Polícia Tupiniquim, a coisa ocorrerá num ritmo muito mais lento. Essa é a mensagem aos policiais e futuros policiais. Procurem a paz de espírito antes de tudo e tentem deixar o futuro para ele mesmo.
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Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.
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