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Lembranças da Criança que eu era

Por Pensamentos Imperfeitos Publicado em 25 de junho de 2019 Atualizado em 18 de agosto de 2026 6 min de leitura

Tem coisas que a gente nem lembra…talvez por necessidade de esquecer mesmo. No meu caso, só pode ser por isso, pois minha memória é mutante o suficiente para trazer à minha mente lembranças do meu primeiro dia na praia do Sobral, em Maceió, Alagoas. Eu tinha então pouco mais de um ano de idade. E, acreditem, eu lembro de quase tudo.

Minha mãe esteve na minha casa um dia desses. Sempre bom demais tê-la por perto. E foi ela mesma quem, por alguma razão do momento, resgatou fatos perdidos da minha jornada.
Eu realmente havia deixado guardado em algum baú do meu espírito, a pessoa que eu fui em idades de um dígito. Não…eu estava longe de ser o personagem descontrolado e desafiador no qual me tornei. Acho mesmo que nem está escrito no meu DNA, isso de ser o indivíduo incoordenável, “outsider”, jocoso e sarcástico que o mundo se acostumou a ver.
Minha mãe resgatou na minha memória, o menino doce, sensível, quieto e generoso que fui na infância. O moleque gorducho, que teve na figura do pai, o primeiro elemento a praticar “bullying” com ele. Não, amigos. Não é mentira não. Os primeiros “rolhas de poço” eu ouvi em casa mesmo. Mas não o culpo…meu pai era um cara singular. E foi ter o azar (ou sorte) de gerar um filho extremamente diferente dele. 
Começando pela parte esportiva
Eu nunca fui bom de bola… ele me deu um jogo de camisas e uma bola, para que eu fosse o dono do time e, consequentemente jogasse nele. E eu tentei…morávamos ao lado de uma comunidade em São Gonçalo e, quando jogávamos futebol contra os garotos de lá, eles nos chamavam de “time do presídio”
Por que?
Porque as camisas tinham listras horizontais vermelhas e brancas e nosso condomínio, construído nos pés do Morro Menino de Deus, era cercado de grades. Mas tudo bem. Não ligávamos muito.
Eu não levava o menor jeito para ser o goleador que o Mestre (era como chamavam meu pai na Marinha) sonhava. Habilidade é algo nato e eu não a possuía de forma alguma.
Não demorou para eu desistir da empreitada do time. Fui ser nadador e jogar vôlei (rapaz, isso foi motivo de muita pegação no meu pé). Quando fui para o Pólo Aquático então…
Para desgosto do Mestre, que viu o filho ser avesso ao conceito de brigador pegador da mulherada. Pelo contrário. Queria ficar em casa desenhando, criando minhas próprias HQs, assistindo meus desenhos animados preferidos.
Não gostava de andar em bando. Estava óbvio que não trilharia o caminho da bebedeira e das arruaças. E mais ainda…muito pelo contato extremo com minha mãe e os problemas inerentes às mulheres… suas angústias e decepções…tornei-me um pré-adolescente com um respeito descomunal pelo sexo feminino.
Tentei seguir, mesmo sob os olhares de reprovação das minhas referências masculinas. Não conseguia entender muito as razões que levavam meu pai a achar que ser um indivíduo quieto e sensível era algo digno de desmerecimento.
Na verdade, a confusão mental era enorme…eu vi coisas extremas do casal que me gerou… vi e ouvi… e nas vezes que me inseri no contexto, sofri consequências físicas e emocionais…
Sim… eu apanhei muito quando era criança…apesar de ser esse cara caseiro e quieto. Respeitador dos pais e bom aluno…vai entender…
Acho que era pela decepção de ser tão diferente dos outros garotos.
“Acho que esse moleque vai ser viado!” Ouvi uma vez…
Ao mesmo tempo, escutava que eu não deveria, em hipótese alguma, trazer consequências de brigas de rua para dentro de casa.
“Resolva na rua! E não chegue ‘apanhado’, senão apanha de novo em casa!”
Paradoxal…mas guardei a informação 
Conforme fui ficando mais velho, mais forte e maior, passei a ser provocador…o cara que fazia pouco caso da burrice alheia, implicante mesmo, para exercitar minha capacidade de resolver as brigas de rua na própria rua. E mais…de jamais levar os “resultados” para casa.
Pareceu-me que ser quieto e sensível era algo tenebroso que deveria mudar a qualquer custo. Mas era de extrema dificuldade deixar de amar livros, HQs e cinema… impossível parar de escrever e desenhar…tentei fazer isso de forma cada vez mais reservada, até porque eu dividia essas coisas com pouquíssimas pessoas da minha vida.
No Ensino Médio, antigo segundo grau, eu havia escolhido estudar cinema. Mas fui desestimulado com veemência pelo Mestre e seus amigos.
“Coisa de maconheiro!!!”
Enquanto isso, eu ganhava concursos de redação e de roteiro na escola…haveria de ficar para trás…sem chance de ter uma escolha assim chancelada.
Devagar, fui deixando de desenhar…escrevia sim…porque era e é algo muito meu…agendas sem fim, escritas da primeira à última página…alguns desenhos místicos…meu mundo particular 
E  minha relação com as mulheres? Como foi ficando?
Posso dizer que minha namorada no ensino médio, já em outra cidade, foi até a minha casa com o firme propósito de “dar para mim”. Estávamos sozinhos…e eu, com excessivo cuidado, achei que fazer isso poderia magoá-la de alguma forma. Uma das mulheres mais legais que conheci…não contou para ninguém na escola que eu não a “comi”. Imagina? Os caras iriam acabar comigo…meu pai então…
E segui assim…sofrendo solavancos imensos…pressões brutais do mundo, que oprimiam o homem sensível e estudioso.
“Bichinha”
E se fosse? Mas nem era o caso…eu só queria ser o eu que nasci.
Devagar, fui me transformando para sobreviver. As decepções com a falta de acolhimento me fizeram adotar o caminho pelo qual a maior parte de vocês me conhece…
Insolente…provocador…arruaceiro…incontrolável 
Algumas dessas pechas me fizeram bem, de verdade… um ser humano nada moralista eu me tornei…
Mas foi uma jornada complexa…
Um conjunto de palavras da minha mãe me trouxe essas linhas todas que acabei de digitar…
E saibam…não culpo meu pai por absolutamente nada. Ele tinha suas virtudes. Via o mundo da forma dele próprio…o mundo que foi mostrado para ele…
Achava que se eu fosse como ele, eu criaria uma espécie de escudo…ele se preocupava do jeito dele.
“Velho Mestre” era como o chamavam na sua última década de vida 
E aqui estou…mais uma vez…desnudando-me para o mundo…sem que ninguém me obrigue a fazer isso…
Romper com as convenções tirou uma bigorna da minha alma…

Sobre este texto

Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.

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