Lady
Dia desses ouvi uma música…
Era uma canção de Lionel Richie, com um arranjo brilhante de Alejandro Manzano… linda música
Mas como num portal dimensional, fui levado para o ano de 1980… quando a música foi lançada
Eu tinha 9 para 10 anos e uma memória já acima da média de qualquer humano… vivi aqueles dias durante os minutos da canção…
Um menino sonhador e sensível, que acreditava não ser deste mundo… porque em sua cabeça, era a única justificativa para sua total falta de enquadramento… a eterna sensação de não pertencimento…
O menino estava inserido em uma sociedade incapaz de lidar com isso… a exigência era que o moleque fosse popular, brigão e “boleiro”… eu tava longe disso tudo… era só um pequenino gorducho que adorava criar histórias em quadrinhos…
Uma boa saída para quem não via graça no mundo, era criar realmente seus próprios mundos… e isso, as HQs fazem com muita eficiência…
Eram mundos nos quais a amizade sincera, o espírito coletivo e a capacidade de se sacrificar por um bem maior estavam sempre presentes… mas era apenas o meu universo…
Desenhos bacanas para um garoto da minha idade… roteiros bem feitos até… eu já escrevia muito bem… de verdade escrevia
Mas não apareceu ninguém para fazer algo com essa habilidade… zero chance de um moleque progredir nisso sem apoio de um ou mais adultos
Quem se importa? Já foi mesmo… águas que passaram sob a ponte e não voltam mais
Acabei lembrando que foi meu último ano de “primário”… hoje é “fundamental 1”… professoras em pânico com as minhas falas
A mais icônica talvez, foi quando a legendária Professora Leda da 4a série, perguntou para a turma qual era o maior desejo de cada um
Entre vontades de ir à Disney, bicicletas e patins, eu disse que não gostaria de ser adulto jamais
“Os adultos tem uma vida muito ruim”
E aí, chamam meus pais e o resto do mundo, bravo comigo por qualquer coisa, voltou suas “baterias” contra o gordinho…
“Não consegue ser um moleque normal, não???”
Não consegui seguir o fluxo ali
Olhava para o futuro e não me enxergava naquela correnteza… como de verdade não entrei nela e talvez por isso mesmo, os 37 anos seguintes foram bem caóticos
Meus colegas de sala já tinham namoradas e eu… não entendia muito bem aquilo… era atento ao mundo… mas zero ambicioso no sentido de vaidades pessoais e de conquistas…
Mais uma bola fora
“Com 10 anos já tem era pra ter umas namoradinhas”
Demorou bastante ainda… muito mesmo… mas intimamente não liguei… era apenas uma cobrança sem sentido para mim
Eu queria desenhar… ser ator… estar no cinema… ser o Han Solo… porque o Luke era meio chatão … mas eu também gostava dele e do Velho Ben…
Fiz tantos desenhos de personagens inspirados nesses caras, que perdi as contas…
Enfim
Eu era uma criança quando Lionel Richie lançou “Lady”
E essa música era um prenúncio de tudo o que sinto hoje… porque 37 anos depois, encontrei a minha “Lady”
E aqui estou
Com muitos pedaços e sonhos deixados pelo caminho… mas aqui…
Sem grandes aspirações… viver os dias sem sobressaltos talvez seja o grande tesouro
E apesar das “derrotas” inúmeras que a jornada trouxe, acabo sendo grato…
E sigo adiante
Sobre este texto
Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.
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