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Implacáveis Sonhadores

Por Pensamentos Imperfeitos Publicado em 30 de janeiro de 2018 Atualizado em 18 de agosto de 2026 2 min de leitura
As pessoas estavam em
polvorosa no minuto exato em que todos aqueles fogos explodiram coloridos no
último céu de dezembro. Eu olhava deslumbrada enquanto percorria em silêncio as
feições daquela multidão que lotava a praia de Icaraí como uma enorme família e
aproveitava para analisar minuciosamente os rostos que se erguiam em direção a
uma super-lua absoluta. 

Aprende-se muito visitando olhares. 2017 foi um ano
ruim e isso era óbvio. Estava estampado nos sorrisos estreitos, nas mãos que
sinalizavam agressivas com o punho erguido que 2017 se fosse, e que se fosse de
uma vez só.  As pessoas não comemoravam a passagem com a mesma alegria que
eu vi tantas outras vezes durante os anos passados. A maioria expulsava 2017
com um alívio quase infantil, um otimismo inevitável, parte dessa fé vinda
sabe-se-lá de onde e que se esforçaram por trazer arrastada a seus brilhos e
roupas novas, claras e taças de champagne cheias de cidra, porque afinal são
tempos de crise. 

Estar no Rio de Janeiro nesse momento foi um marco histórico.
Nós somos todos sobreviventes. Sobrevivemos a falência do Estado, aos desmandos
dos corruptos que faliram nossa estrutura pública – já tão maltratada -,
sobrevivemos a uma violência selvagem onde os agentes sociais envolvidos tem
levado a pior independente do lado que dispara suas armas. Os servidores
públicos e os aposentados também sobreviveram. Sobrevivemos ainda ao caos no
sistema de saúde, sobrevivemos a maldita polarização ideológica que nos jogou uns
contra os outros em busca de culpados. Alguns ainda respiram por aparelhos,
insistem no mano a mano, nas críticas pessoais ao invés de estruturais. 

Ainda
tateamos no escuro para entender, nos organizar e finalmente perseverar.
Definitivamente o ano passado foi um ano ruim. E como nada no Brasil nunca foi
fácil, cá estamos nós. Fortalecidos, endurecidos, mais calejados e ainda
sobrevivendo. E quanto mais nos olhamos, mais nos vemos. 

A saída está nas
pessoas, foi o que li nas entrelinhas que iluminavam repetidamente as famílias
por quem cruzei aquela noite.  E é assim
que colocamos nossos pés em 2018. 

Somos implacáveis sonhadores.


Por Railane Borges

Sobre este texto

Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.

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Sobre o autor

Pensamentos Imperfeitos

Escritor e cronista

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