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Imerso no Caos

Por Pensamentos Imperfeitos Publicado em 04 de maio de 2010 Atualizado em 18 de agosto de 2026 4 min de leitura

Debaixo de temporais de outono no Rio de Janeiro, nunca é sensato sair de casa. Ainda mais a essa hora da madrugada. Por sorte, a chuva deu uma “tranqüilizada”. Ela ainda cai de forma insistente, mas o volume de água já é bem menor que há algumas horas.

Uma velha capa impermeável, herança de meu pai, de seus tempos de Marinha de Guerra, acompanha-me nesta inusitada jornada. Nem eu mesmo sei porque estou na rua…Talvez por conta desta maldita insônia que me acompanha desde que entendo por gente.

Percebo-me ainda mais solitário diante de uma cidade imersa no mais absoluto caos. Após três dias consecutivos de fortes tempestades, a maior parte dos habitantes da cidade resolveu permanecer em casa, para sua própria segurança. Três quartos dos bairros estavam sem energia elétrica e a água potável já começava a escassear para a maioria.

Minha jornada é sem rumo…Não tenho a menor idéia do quanto caminhei…Muito menos do tempo que passou desde a saída do velho prédio, no bairro do Catete, onde costumo me recolher do mundo. Ver o sol é tem sido uma raridade. Falar com as pessoas mais ainda. Não sinto fome…Não sinto sede…Mas um instinto inexplicável me impulsiona.

Os cabelos, que deixei longos, insistem em cair sobre a minha face. Não me importo. Olho por entre os fios molhados e pesados.

As botas de “trekking”, impermeáveis por natureza, buscam espaços firmes para a caminhada. Uma tarefa árdua, diante de um cenário apocalíptico de prédios semi-desmoronados, sirenes gritando ao longe e lixo espalhado por absolutamente todos os cantos.

O silêncio de vozes é apenas quebrado por um outro grito de desespero…sempre acompanhado pelo som característico do choro da incredulidade.

Aproximando-me da faixa litorânea, perto do Aterro do Flamengo, percebo um inviável som de ondas pesadas quebrando. Ouso me aproximar. A falta de energia não impede a visão do desastre…a inesperada ondulação, típica das tempestades oceânicas, continuava seu processo contínuo de devastação da região que cerca a antes plácida Baía de Guanabara.

Paro por minutos, tentando acostumar os olhos à escuridão. As manchas brancas amontoadas no Aterro são os restos destroçados dos veleiros oceânicos, que antes repousavam tranqüilos sobre as águas da Baía. Ainda é possível observar as cristas espumantes das ondas de três metros de altura, que quebram sem parar. Não posso conter o sorriso…Não…Não que eu ache graça do caos.

Sorri por constatar o quanto ignoramos os avisos sobre a natureza viva do planeta. Sorri, porque eu mesmo já havia enxergado os sinais, quando era ainda um simples estudante de oceanografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. E isso já faz vinte anos.

Mais sirenes…Passo em frente a uma escola municipal, que agora serve de abrigo para milhares de pessoas que perderam tudo com a catástrofe natural. Não é preciso apurar os ouvidos para que o choro típico de bebês invada a minha mente. Penso que, pelo menos, estão seguros ali dentro. A cidade perdeu todas as referências. Não há comando…Não há ordem…Os saques se multiplicam debaixo da torrente, sem que haja um mínimo parâmetro de autoridade.

Talvez por isso o vazio seja a tônica das ruas. O medo, sempre presente na vida do habitante da megalópole, impede que as pessoas saiam às ruas por qualquer que seja o motivo. Medo saudável, esse…As ruas desertas, realmente, escondem o mal em cada esquina. Apenas um ser com a sanidade perdida poderia estar aqui, agora…

Ouço mais gritos. Um desespero cortante. Uma mulher…Guiado pelo som macabro, visualizo a cena repleta de horror, da jovem moradora de rua, completamente despida, com os braços seguros por dois homens com semblantes enlouquecidos, enquanto outro a possuía de forma violenta. Os mínimos segundos que passo observando a cena, mostram-me a loucura extrema de um arremedo de ser humano, arrancando pedaços da carne da menina com os próprios dentes, enquanto se deleita com seu sofrimento.

Tomados que estão pela loucura, nenhum deles percebe a minha presença. Nem a jovem negra com o pavor nos olhos.

O primeiro disparo ecoou na cidade deserta, atingindo a cabeça do homem com as calças arriadas, fazendo com que cessassem os aviltantes movimentos pélvicos. Menos de meio segundo depois, dois tiros de calibre 9 mm em cada um dos que imobilizaram a garota violentada.

Com os olhos arregalados, a menina é a expressão do pânico. Acabo me aproximando para erguê-la. Recolhi os trapos espalhados pelo chão, que pareciam ser as roupas que ela usava. Tirei a velha capa de meu pai para protegê-la da chuva. Como um ser inanimado, deixou-se guiar por mim até que chegamos às portas da mesma escola municipal por onde eu havia passado momentos antes. Deixei-a lá.

Peguei a capa. Imergi na noite de caos. Nada de cansaço…Nada de sono…Eu sou apenas parte deste cenário de desesperança.

Sobre este texto

Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.

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Sobre o autor

Pensamentos Imperfeitos

Escritor e cronista

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6 comentários

  1. "Sorri por constatar o quanto ignoramos os avisos sobre a natureza viva do planeta."
    Se um terço da população enxergasse o que você viu, o mundo estaria salvo.
    Grande abraço Sandro…

  2. Sandro, mais uma vez estou aqui a parebenizar o seu trabalho que como sempre está em auto-nível.

    Gostaria que voce tirasse-me uma dúvida, estou estudando para Agente da PF, porém estou cursando Tecnologia em Processamento de Dados e, verificando os editais anteriores eu posso fazer prova para Perito Criminal, porém nada afirma sobre o meu curso em relaçao ao cargo de Agente da PF, caso você saiba poderia me informar ou pelo meu e-mail dayvisson.info@gmail.com, ou por aqui pelo seu blog, desde já agradeço.

  3. "Cara onde se busca tanta criatividade, hein!"
    Bacana mesmo hein!
    Muito bom.
    Gostei muito.

    "Santa criativiade!

    Ass. Silva

  4. Muito bom kra …
    gostei d + do conto
    sou novo aqui no blog
    e tambem tenho o sonho d entrar
    nesta maravilhosa corporação…
    um super abx

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