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História de Carma

Por Pensamentos Imperfeitos Publicado em 23 de dezembro de 2008 Atualizado em 18 de agosto de 2026 4 min de leitura
Há cerca de oitocentos anos, o príncipe da província de Kyushu, Kato Saemon Shigenji, tinha duas mulheres. Amava as duas, mas elas não se entendiam e viviam às turras. As queixas constantes de ambas, suas cóleras, seu espírito mesquinho e invejoso, envenenavam a vida do príncipe, a ponto de fazê-lo acalentar idéias de assassínio. Um dia, cansado da superficialidade da existência e das honras do cargo, decidiu romper com suas ilusões e procurar as raízes do próprio ser; abandonou o rico palácio e todas as propriedades que possuía, para levar a existência simples do monge.
A primeira esposa seguiu-lhe o exemplo e recolheu-se a um mosteiro. A segunda, nos meses que sucederam à repentina partida do marido, deu à luz uma belíssima criança, filho dele.
Passaram os anos. Desde a mais tenra idade o filho não cessava de perguntar à mãe:
– Onde está papai ? Por que não tenho pai ?
E a mãe lhe explicava, sem contudo satisfazê-lo, que ele havia desaparecido. Depois de completar dezesseis anos, o desejo de encontrar o pai se tornou de tal ordem que ele resolveu partir à sua procura. Diante de tamanha insistência, a mãe, que acabara sabendo, afinal, que o príncipe se havia recolhido a um mosteiro da montanha sagrada de Koyasan, decidiu acompanhá-lo até esse lugar.
Lá chegada, ela ficou esperando numa estalagem, pois a entrada do mosteiro era vedada às mulheres, enquanto o filho marinhava pela montanha, à procura do pai.
Passou-se o dia, a noite caiu e o garoto adormeceu entre dois troncos de árvores. Na manhã seguinte, uma voz despertou-o:
– Que estás fazendo aqui?
Era um monge alto, de traços altivos e suaves, crânio raspado, que lhe falava.
– Estou procurando meu pai.
– Ah! Mas quem é teu pai?
– É o príncipe Kyushu, que vive nesta montanha. É meu pai, quero encontrá-lo !
Conturbado, o monge compreendeu que tinha diante de si o filho único, em cujos traços reconheceu os seus e os da mãe. O coração pulsava tanto que se diria a pique de arrebentar. Quis apertar entre os braços o homenzinho que o fitava com o semblante triste e obstinado.
Conteve-se, porém, e não se mexeu. Naquele tempo, as regras observadas pelos monges eram muito severas: quando um leigo tomar a tigela, o bastão e vestir o kesa, tinha de cortar todo e qualquer laço com a existência anterior, sob pena de quebrar os kais, os preceitos.
Disse, então, brutalmente, o monge ao menino:
– Sim, teu pai vivia aqui, mas morreu na semana passada.
Os olhos do menino encheram-se de lágrimas e ele abaixou a cabeça. Com o coração dilacerado, o monge não sabia o que fazer, entre o desejo de apertar a criança nos braços e a vontade de não infringir a regra da ordem.
Mas o pequeno ergueu a cabeça e disse:
– Quero ir rezar no túmulo dele. Acompanhai-me, por favor.
Num determinado sítio do cemitério, o monge indicou uma sepultura debaixo de um grande rochedo, uma laje singela em que se lia, gravado, o nome de um monge.
– Pronto. Está aqui.
O garoto prosternou-se e orou longamente. O monge reteve as lágrimas e, ao cabo de um momento, disse-lhe:
– Vai, já está na hora de voltares para junto de tua mãe.
A caminho do cemitério, ele o fizera contar a vida levada pelo filho, que já não podia reconhecer como tal.
– Ora, vamos, nunca viste teu pai, ele está morto, esquece-o, torna-te agora um homem digno de tua herança de príncipe.
O menino seguiu-o até o pórtico do templo e dali retornou tristemente pelo caminho indicado.
De volta à estalagem, ficou sabendo que a mãe falecera, durante a noite, de repentino acesso de febre.
Louco de dor, regressou com a escolta à cidade, esperando ver ali sua tia querida. Mas ela também acabava de morrer, vitimada pela epidemia.
Sentiu, então, o garoto que o universo desabava à sua volta. Mais solitário do que nunca, já nada o atraía, os alimentos, para ele, tinham gosto de cinza, as paisagens graciosas do seu jardim não lhe despertavam mais nada, e as músicas mais suaves emitiam um som fúnebre.
Em sua cabeça de criança, contudo, ainda luzia uma esperança: o monge que encontrara no alto da montanha, no mosteiro onde flui uma vida mansa, ritmada pela meditação e pelas cerimônias.
Fugiu do palácio com a intenção de voltar para lá.
O monge, um dia, viu-o surgir no pátio do templo:
– Que estás fazendo aqui?
– Quero ser monge. Toda a minha família morreu, a vida já não tem sentido para mim. Quero ficar convosco
Compreendeu, então, o monge que não podemos escapar ao nosso destino, ao nosso carma. Podemos quiçá modificá-lo, mas ele nos segue sempre, sob uma forma ou outra.
E assim, o filho tornou-se discípulo do pai.

Sobre este texto

Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.

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