Fabulas Cariocas: Chapeuzinho Vermelho
Encolhida em sua cama e coberta pelo antigo edredom, Raquel deixava o tempo passar, alternando sua atenção entre o aparelho de TV e as mais descompromissadas divagações. Em uma noite de sexta-feira do inverno carioca, o que ela mais queria era o ócio total, após uma atribulada semana de trabalho e estudos.
E ela conseguia se esconder do mundo com relativa competência naquele quarto, parte de sua vida desde que ainda era uma criança. Aos 22 anos, Raquel havia se transformado em uma bela mulher, que se esforçava para ajudar a mãe, divorciada há duas décadas. Mantinha um frenético revezamento entre o emprego em uma loja de roupas e a faculdade de Direito. Tinha consciência do quanto foi difícil para mãe conduzir as vidas das duas, mantendo a dignidade. Por conta disso, dedicava-se de modo a ser capaz de dar um futuro para a mãe, no qual ela pudesse, simplesmente, descansar.
Com apenas metade da cabeça do lado de fora do edredom, percebeu quando a mãe, batendo na porta antes, entrou no quarto e indagou:
– Raquel? Tá dormindo, filha?
– Não mãe. Só assistindo TV – respondeu ao mesmo tempo em que deixou o resto da face visível para a mãe.
– Filha, vou precisar de um favor seu. Sua avó acabou de ligar para dizer que esqueceu as duas caixas de remédios para pressão aqui. Eu procurei e vi que ela tinha razão. Será que você pode ir à casa dela para levar?
Apesar do pedido da mãe bater de frente com o estado de total relaxamento no qual Raquel se encontrava, sorriu para a mãe ao mesmo tempo em que já saía de baixo do edredom.
– Obrigado filha. – continuou a mãe. – Vou aproveitar para embrulhar um pedaço de empadão para você levar para ela. – finalizou, momentos antes de fechar a porta do quarto da filha.
Poucos minutos depois, Raquel já passava pela portaria do prédio onde morava, em direção à noite fria de inverno. Cumprimentou o porteiro, que não conseguiu esconder a indiscrição de olhar para o próprio relógio, e ganhou a rua pouco movimentada do subúrbio carioca.
O vento frio soprava forte, de forma incomum para os padrões da cidade, obrigando Raquel a cobrir a cabeça com o capuz do casaco de moletom vermelho que usava. As mãos enterradas nos bolsos do casaco, ajudavam a completar a defesa contra o frio excessivo.
A caminhada não era tão curta, uma vez que a avó morava a quinze quadras do prédio onde Raquel vivia com a mãe. Apesar do horário avançado, a jovem não sentia grandes temores. Foi criada no bairro e não havia um habitante sequer das redondezas que não soubesse quem era a menina loura de cabelos ondulados.
Contudo, foi incapaz de conter o susto quando foi abordada por um rapaz de baixa estatura, magro, que usava uma touca preta, que cobria mais da metade da cabeça.
– Diz aí Chapeuzinho Vermelho!! – exclamou – Que novidade é essa, você perambulando pela rua a essa hora?
– Ai Juninho! – respondeu a garota, colocando a mão direita sobre o peito, numa clara demonstração de que ficou assustada com a abordagem do rapaz. – Que susto!! Sai do meio do nada assim…
Raquel conhecia Junior há mais de dez anos. Eram quase da mesma idade, sendo ele pouca coisa mais velho que ela. Chegaram até a estudar juntos por um certo tempo, mas Junior, Juninho como todos no bairro o conheciam, foi reprovado algumas vezes, até que resolveu largar os estudos definitivamente.
– E aí Raquel? – recomeçou o rapaz – Tá indo pra onde? Pra casa da vovozinha?
– Tá escrito na minha cara?
– Fala sério! – retrucou ele, já começando a gargalhar. – Eu chutei, pô! Tu tá vestida de Chapeuzinho Vermelho. Aí pensei, Chapeuzinho só pode estar indo pra casa da vovozinha.
– Tá bom. – respondeu resignada, sem parar de caminhar. – Deixa eu me adiantar, garoto. Tenho que levar uns remédios pra minha avó.
Durante alguns momentos, caminharam em silêncio, lado a lado, pela rua mal iluminada do subúrbio. Até que, mais uma vez, a voz de Junior cortou o ar frio da noite.
– Falando em remédios… – fez uma pausa e continuou – tenho uma coisas aqui comigo, que eu acho que você vai ficar amarradona.
Nesse momento Raquel sentiu o estômago gelar. Sabia bem do que Junior estava falando. Desde que decidiu largar os estudos de vez, o rapaz passou a ganhar a vida como traficante de drogas. Começou pequeno, mas já era possível visualizar como o dinheiro do crime fazia parte do cotidiano de Junior.
Estava sempre vestido com roupas de grife e trocava de motos e carros muitas vezes por ano. Vivia sozinho com o pai na casa onde foi criado, desde que a mãe morreu vítima do alcoolismo. Embora fosse usualmente dócil com as pessoas que conhecia há muito tempo, relatos de atos violentos do rapaz acabaram deixando os moradores do bairro bastante preocupados.
– Sem essa Junior. – respondeu Raquel – Não sei nem porque você me oferece. Todo mundo sabe que não sou chegada nessas coisas.
– Só se for agora! – retrucou, erguendo a voz e deixando evidente o tom sarcástico – Esse negócio de “todo mundo sabe” não cola comigo. Sei muito bem que na época que você namorou o Dedé, vocês dois viviam dando uns tecos juntos.
Raquel sentiu as pernas bambearem. Tanto pela agressividade de Junior, clara no seu tom de voz, quanto pelo fato de lembrar do seu problemático namoro com Dedé.
André Luiz, conhecido entre os amigos como Dedé, era um popular jovem da zona sul do Rio de Janeiro, oriundo de uma família de classe média alta e que, talvez por isso mesmo, não dava o devido valor às facilidades que tinha na vida. Era do tipo que não se importava em arremessar um telefone celular novo de última geração na parede, em momentos de raiva, ou simplesmente por diversão.
Quando Raquel começou a sair com ele, após conhecê-lo em uma festa da faculdade, tinha consciência da personalidade difícil do rapaz. Mesmo assim, talvez encantada pela beleza acima da média de Dedé, acabou por se envolver de forma cada vez mais profunda no relacionamento.
Pouco tempo depois de começar a frequentar a casa de Raquel, Dedé fez amizade com Juninho. A rapidez com que os dois se transformaram em grandes amigos tinha uma explicação simples. Juninho, que apesar da pouca idade já era um experiente traficante de drogas, identificou em Dedé um potencial consumidor.
Sem saber muito bem como, nem porquê, em pouco tempo a própria Raquel estava imersa no mundo paralelo do consumo de drogas ilícitas. Talvez a paixão desenfreada por Dedé tenha feito com que ela sucumbisse aos apelos do namorado, para experimentar aquele pó branco que servia de estimulante.
E foi esse mesmo pó que quase fez com que ela perdesse o emprego na loja de roupas onde trabalhava, e que era mais que necessária para completar o orçamento da sua casa. Quando percebeu o tamanho do problema que poderia causar a si mesma e para a mãe, desfez-se do pó e do namorado viciado.
E agora aquele traficante estava ali, diante dela, para fazê-la lembrar de como foi burra e inconsequente por se deixar levar por uma alma vazia como a de Dedé.
– Pois é Juninho! É agora mesmo. Sei que andei fazendo umas besteiras por aí, mas já tem um certo tempo que eu não me meto mais com essas coisas. – disse usando um tom de voz firme.
– Beleza…Tá bom…- ele pareceu concordar – Falou, Chapeuzinho! Tô saindo fora!
Juninho virou em uma das esquinas e desapareceu pela noite fria do subúrbio, deixando Raquel aliviada por não ter prolongado muito aquela conversa sobre drogas.
A loura com o capuz vermelho na cabeça e as mãos enterradas nos bolsos do moletom ainda caminhou por longos minutos, antes de chegar à frente do portão da casa da avó. Achou estranho a casa estar com as luzes apagadas, pois sua avó provavelmente estaria esperando pelos remédios que estava trazendo. Percebeu que o cadeado trancava o portão de ferro e nesse momento começou a ficar verdadeiramente preocupada.
Sem muito esforço, pulou o muro da parte da frente da casa e caminhou pelo corredor lateral que dava acesso aos fundos. O silêncio dentro da casa fazia com que Raquel ouvisse seus próprios batimentos cardíacos, a essas alturas, descompassados pelo receio de que algo mais grave tivesse acontecido à sua avó.
Girando a maçaneta da porta dos fundos, que ara a entrada da cozinha, viu que estava aberta. Empurrou a porta, ansiosa e assim que entrou, sentiu a dor de uma forte pancada que levou na coxa direita, fazendo-a cair de forma desengonçada.
– Vadia filha da puta!
Apesar da escuridão reinante, Raquel imediatamente reconheceu a voz e os contornos da silhueta de Juninho, que estava de pé, diante dela, com os olhos vitrificados e a respiração descontrolada. Certamente o traficante estava sob o efeito de algum dos produtos que vendia.
Mal acabou de xingá-la pela primeira vez e já desferiu outro chute na garota, que, da posição onde estava, observou o corpo da avó caído e imóvel na sala. O terceiro chute veio na direção do seu rosto, deixando-a quase sem sentidos. Ainda assim acompanhou, aterrorizada, o momento em que o traficante sentou em sua barriga e agarrou seu pescoço com as duas mãos.
– Tu acha que vai bancar a santa pra cima de mim desse jeito? – Juninho estava transtornado – Já viu tua vovozinha detonada ali, Chapeuzinho Vermelho? Agora fica quietinha, pra me fazer ficar mais calmo.
Raquel estava completamente dominada pelo pavor. Sentia as mãos do rapaz em torno do seu pescoço e todo o peso dele sobre sua barriga. A imobilização era total e fazia o desespero tomar todo o corpo da garota. Quando tentou balbuciar algo, no intuito de pedir que traficante parasse com aquilo, foi fortemente esbofeteada por ele.
– Já te falei pra calar essa boca!! – vociferou, quase ao mesmo tempo em que começou a fazer força para tirar o moletom junto com a camiseta que Raquel usava. Apesar de se debater, tentando impedi-lo, em segundos a loura sentiu o ar frio da noite, envolver seu torso quase nu, protegido apenas por um sutiã, que também foi rasgado rapidamente. Outro violento soco no rosto e Juninho já investia contra a calça jeans da garota.
Então, outra forte pancada. Dessa vez, o alvo foi a mandíbula de Juninho, atingida brutalmente pelo que parecia ser uma bota.
Quando a luz foi acesa, tanto o traficante quanto Raquel puderam observar o que atingiu o rapaz. O coturno negro de um dos policiais militares que apontavam suas armas para Juninho, ainda atordoado com a violência do golpe que levou. Instantes depois o traficante estava deitado de bruços, com as mãos algemadas para trás, enquanto os PMs auxiliavam Raquel a se recompor. Ajudaram-na com as roupas e, após verificarem que nada de mais grave havia ocorrido, correram para a sala para avaliar a situação da avó da garota. Para Lívio de Raquel, a idosa estava viva, apesar de alguma dificuldade para respirar.
Em poucos minutos um pequeno exército de policiais militares se juntava aos paramédicos dos bombeiros, vizinhos e à mãe de Raquel, que chegou desesperada. No compartimento de presos do camburão da polícia, Juninho aguardava em silêncio, o momento em que seria levado para a delegacia. Tinha consciência plena de que não sentiria o gosto da liberdade por um longo tempo. Havia sido preso em flagrante e, por uma ironia do destino, o crime não foi o de tráfico de drogas. Estupro. Sabia o que esperava por ele na cadeia. Agora nada mais podia fazer. Já se considerava um sujeito de sorte por ter escapado do linchamento dos vizinhos e curiosos.
Raquel, amparada pela mãe, agradecia calorosamente aos policiais militares, que, provavelmente, salvaram-lhe a vida e a da sua avó, que já recebia os cuidados dos médicos especializados do Corpo de Bombeiros. A jovem havia sofrido pancadas contundentes, mas nada que inspirasse maiores cuidados. Observava o cenário de caos em torno da casa e pensava que tudo o que mais queria era ir para casa.
Esquecer aquilo tudo ela sabia que era algo impossível. Mas estava viva e tinha a mãe e a avó para cuidar. A vida deveria continuar, para que tudo se transformasse em mais uma página do livro de fábulas do cotidiano carioca.
Sobre este texto
Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.
3 comentários
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Depois de uma revisao (essa é a primeira versao, né???), vai ficar pfto. Boa sorte!! JL
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juro que quando li 'coturno negro' acreditei que era mais uma ação do anjo!!
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