Esperanças e Dores em um Carnaval sem grandes Sorrisos
Hoje eu queria conseguir vestir a minha fantasia e fingir que as ruas do Rio não estão inundadas de sangue. Queria mesmo.
Queria jogar purpurina no rosto e esquecer das crianças assassinadas essa semana. Hoje eu queria mais que tudo esquecer essa guerra inútil na qual estamos todos metidos, mais perto que longe, e queria ir pro bloco vestindo o sorriso cínico do Crivella pra gritar aos sete ventos que é tudo só boato.
Que Acari não chora, que a Maré vive, que SG não é invisível pro Governo. Queria ignorar o surreal dos 200 fuzis nas três comunidades principais da minha pequena cidade, com os quais aprendemos a conviver não pacificamente.
Queria também sair só de biquini nos 40• graus mais famosos do mundo e fingir que sou livre, que aquele cara que me passou a mão no meio da multidão não existe, e que tocar uma mulher nessas ocasiões é só uma brincadeirinha, mas eu não consigo. A alegria que carrego no peito não cabe nessa realidade. E hoje talvez eu devesse fazer caber.
Talvez eu devesse enfiá-la na guela do mundo e rir e chorar com as marchinhas tradicionais e tão preconceituosas que se canta pelo carnaval. Talvez, hoje eu devesse fazer a minha melhor pose e postar aquela selfie no instagram, pra lembrar a todos que minha carne é de carnaval e que somos tão tão livres que nosso hino para esse ano seja repetir centenas de vezes a frase “que tiro foi esse”, pra depois responder apática e bêbada, como a jornalista da globo “…. um tiro de fuzil no peito…” Mas eu não consigo. Quem sabe amanhã?
Por Railane Borges
Sobre este texto
Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.
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