Disciplina, Respeito e Outros Valores Esquecidos…
Em que pesem a péssima acústica, a difícil visualização da tela onde eram projetados nossos slides e a colocação dos alunos nas arquibancadas, o próprio ânimo desses mesmos alunos foi algo próximo do lastimável. Carência social e desfavorecimento econômico jamais serão desculpas para comportamentos desprovidos de cordialidade e respeito. Porque as noções de respeito são inerentes ao ser humano…
Muitos estudantes presentes naquele ginásio comportaram-se de forma verdadeiramente magnífica, tentando, apesar do que fazia a maioria, prestar atenção e captar alguma coisa, do que tentávamos passar para todos. Mas, sinceramente, ficou claro, que para a maior parte dos presentes em nada interessava o que tínhamos a dizer. E isso, meus caros, é muito, muito triste.
O discurso que mais ouço por aí é que algumas classes sociais têm uma tendência maior a se afundar pelos caminhos e armadilhas do mal, porque a informação e o conhecimento não lhes chegam de forma adequada. Depois de hoje, serei muito mais criterioso antes de acreditar nisso. Obviamente, falo de jovens e crianças que crescem cercados de valores muito particulares, com percepções próprias da vida como um todo. Entretanto, é preciso ser honesto para dizer que muitos preferem estar como estão a caminhar de forma árdua na obtenção do conhecimento. É mais fácil…é mais simples e demanda muito menos esforço.
Aqueles que têm a noção exata do quanto é necessário buscar esse conhecimento e essa visão do que é a vida, acabam vencendo, de alguma forma, em algum momento. É difícil aceitar isso como verdade, uma vez que aprendemos a acreditar que essas crianças imergem nas mais diversas formas de comportamentos marginais, por conta da ausência de políticas de educação coerentes. De certa forma, a falha maior está na falta de comprometimento dos educadores da rede pública com a necessidade de disciplinar essas crianças.
Pude perceber o quanto é normal, para alguns educadores, o comportamento equivocado, em termos disciplinares, dos alunos da rede pública. Diante de toda a balbúrdia causada durante o evento, absolutamente nenhum professor, nenhum inspetor esboçou qualquer reação, no sentido de reorganizar aquelas crianças. Por mais que surjam explicações de como é difícil disciplinar crianças e jovens em situações de risco, será sempre complicado para mim, aceitar isso. Se há o medo de ser retaliado por um aluno, se o professor se omitir com receio puro e simples, é melhor desistir da carreira. Tudo nesta vida é o tom… É necessário conquistar a confiança desses jovens oriundos de comunidades dominadas por poderes paralelos, sem abdicar de uma postura disciplinadora. A troca tem que existir e, por mais ousado que seja um estudante que se sinta “protegido” por seus amigos criminosos, ele deve enxergar em seus professores pessoas a serem respeitadas.
Pessoas que exalam medo, são facilmente identificáveis…e com essas crianças, que necessitam muito mais que as outras de parâmetros, isso não é diferente. De qualquer forma, não pude deixar de falar tudo isso para eles…sei que fez pouco ou nenhum efeito para a maioria. Mas como professor que fui durante anos, eu jamais iria me omitir em relação a qualquer coisa do tipo. O que sei, é que estávamos lá, tentando levar o conhecimento. Tentando dar condições de avaliação de vida para aqueles estudantes, da mesma forma que fazemos há anos em outras instituições. Mas, para ser um indivíduo saudável e livre de drogas, como nós tanto pregamos, é preciso, antes de tudo, querer…e ali, infelizmente, poucos querem. Será que chegamos tarde demais?
Sobre este texto
Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.
7 comentários
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Como eu disse, tudo é questão do modo…do tom…
Use o tom correto, diga o que é preciso ser dito e terá a confiança daqueles que quer atingir. Isso é arte e ciência. Omitir-se não é solução, até mesmo por uma questão de querer sempre melhorar as condições de trabalho.
O profissional, de qualquer área, que se omite em relação ao que está errado, acaba por observar os erros diante de si, de forma inerte.
Sou professor e serei sempre. Claro está que a qualidade dos alunos se deteriora a cada ano. Os valores já não são sólidos. Os adolescentes não têm noção de absolutamente nada.
Por mais incrível que possa parecer, existe um consenso entre o alto comando do crime organizado, da necessidade de "educar" seus futuros membros. A questão não é estar ou não estar em áreas de tráfico. A questão é ter vontade de atuar de forma marcante. E ser marcante não é "bater de frente" com quem quer que seja. É demarcar espaço com atitudes e palavras bem colocadas, ganhando respeito até do mais rebelde entre os alunos.
O problema maior é que esse professor, massacrado pelas condições de trabalho na qual se encontra, já não tem ânimo para mudar absolutamente nada. Pior…Já não acredita na mudança.
A realidade é que os fatores são inúmeros. Mas desistir da luta jamais será solução para o que quer que seja. O mais importante é buscar as estratégias capazes de levar à vitória.
Obrigado por comentar um tema tão complexo. -
Bem Sandro antes de tudo gostaria de lhe dar os parabens por sua atitude em pelo menos tentar enviar a mensagem a esses jovens que algun dia serão o futuro de nosso pais e que realmente acredita e ainda tem fé em afastalos das drogas quando muitas pessoas ja consideram isso como 1 guerra perdida.Agora sobre oque aconteceu no Ginasio você ja ve por si só que o Brasil não mudou muita coisa: Professores cansados e em má condiçoes de trabalho,alunos que não se focam no aprendizado e muitos outros fatores que revelam a pessima educaçao no Brasil.
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Para poder solucionar esse problema é importante tirar os professores de condições de trabalhos lugúbres.
Se esses profissionais exalam medo é porque os sistema não lhes propicia segurança, nem "poder" algum.
Minha mãe é professora da rede pública do estado de São Paulo, em São Bernardo do Campo. É uma pessoa que nunca desiste de seus alunos apesar do que aconteça: fica indignada quando outros professores os chamam de marginais, que deveriam queimar no inferno etc, Apesar disso dar aula não é facíl, Ela tem problema de visão pouquissima vista, muitos alunos aproveitam para "Apronyar" roubando seu material e jogando no lixo, colocando coisas em sua cadeira, estes são os mais "sútis". Alguns a chingam, falam do jeito que quiserem com ela (não importa se ela, fala num tom maior, ou mais firme) queimam coisas…
Trazer o problema a diretoria? A diretoria não liga.
Chamar os pais, ou ir até eles? Muitos não estão nem aí, alguns, até mesmo, dão razão aos filhos.
Fazer boletim de ocorrência? Quando se faz, não adianta.
Essas perguntas, só são feitas por um motivo: A dificuldade de se implantar projetos nas escolas! Muitos professores tem idéias revoluiconárias para melhorar a relação aluno/escola; Criar atividades extra cuirrculares; incluir jovens e os fazer interessados; Entender o meio em que vivem, os problemas que passam e trabalhar em cima disso.
Projetos que em sua maioria morrem na etapa de idealização, pela fato das instituições de ensino não estarem dispostas nem ao menos a avalia-los/discuti-los quanto maios os implementar!
Por outro lado vemos professores, que sofrem na mão do sistema, sofrem na mão estado, e sofrem na mão da socideda que os culpam por todo o mal desempnho escolar do Aluno.
Apesar de minha mãe nunca ter desistido de seus alunos, depois de 35 anos de professora, isso lhe trouxe vários problema de saúde, tanto físicos quanto menatis. Está esperando aposentadoria que sairá daqui alguns meses, porque ela já não aguenta mais dar aulas pra garotos de 13~18 anos. (Mas ela continuará dando aula para adultos)
Sandro, já imaginou você por exemplo subir o morro pra prender um traficante, sózinho, sem arma alguma, e sem poder criar/executar qualquer espécie de plano? É suícidio! Mas, mantendo-se os níveis, é isso que os poucos bom professores enfrentam dia-após-dia.Sei que isso que digitei soa mais como um desabafo, é um pouco disso também hehehe.
Sei também que eu poderia ficar muito tempo argumentando sobre os problemas que atingem os professores, por isso resolvi falar um geralzão hehehe.
Mas creio que um dos principais pontos pra resolver o problema dos professores e da educação, é o envolvimento da sociedade que se mobiliza pouco por essa causa e ainda tem muitos preconceitos. Entender o jovem que está ali desrespeitando o professore e o ambiente de ensino, não como filho do vizinho, mas como um de nossos próprios filhos pode ser um ótimo primeiro passo.
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Desculpe o post enorme, e os erros de ortografia.
Muito legal o post e muito legal seus comentários Sandro, concordo com eles 100%.
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Sandro, companheiro, enquanto houver uma pessoa que puder/quiser ser retirada desse meio, sua chegada nunca será tarde. Tente tirar dos poucos que lhe ouviram forças pra continuar, pois são esses realmente os merecedores de tudo isso. E se um, entre milhares, conseguiu dar-lhe atençao, esse um, poderá um dia palestrar para mais um… e assim quem sabe, pela força de uns poucos, um dia essa guerra será vencida.
Meus sinceros cumprimentos.
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Olá Sandro,
estudo e trabalho em uma universidade pública renomada, cujos alunos são em sua grande maioria vindos de famílias abastadas. E vejo o desinteresse que demonstram pelos estudos.. é lastimável…ou seja, o desinteresse do jovem é um fenômeno que atinge todas as classes sociais…
E a nata sócio-cultural brasileira, que deveria estar envolvida, preocupada com os problemas sociais de nosso país, busca na Universidade apenas uma forma de obter seu diploma e garantir a permanência no grupo social a que pertence. Pois acredito que aqueles privilegiados, que têm acesso a educação de qualidade, têm o dever de alguma forma contribuir com seu conhecimento para o desenvolvimento do país. E creio que esta alienação dos mais favorecidos também contribui para a manutenção de problemas como o das drogas, ou da educação no país. Ou seja, problemas como este que você cita são de reponsabilidade não só de professores e governo, mas do cidadão também, especialmente daqueles mais favorecidos, que teoricamente teriam mais a oferecer.Abraço
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Sei lá acho que qualquer um fica desanimado com uma situação dessas.
Muitos deveriam pensar "É só mais um otário querendo falar as merdas sobre drogas" e como a escola é vista por muitos (principalmente nas regiões onde o ensino é mais defasado) como local simplismente para zuar, ver amigos, e se mostrar para ascender socialmente é muito dificil conseguir a confiança deles.
Já vi muitos professores lutarem incansavelmente pela disciplina dos alunos, mas depois de 15, 20, 30 anos dando aula, isso cansa.
É díficil você falar pra alguém que foi professor a vida inteira, ou só tem essa carreira como opção imediata: desistam da carreira, afinal, muitas vezes é isso, ou passar fome ;/
O medo do professor não é em vão, se em escolas "+/-" já acontecem barbaries por parte de alunos, imagine em uma escola muito mais próxima ao trafico?
Temos que aceitar ue muitos não querem ser caretas, mas é claro não devemos nos conformar mas entender o problema e procurar soluciona-lo.