Da Calmaria ao Inferno: Uma Manhã de Domingo
Acordei tarde neste domingo. Para variar, boa parte da noite foi passada em claro, marcando mais um capítulo da insônia que me acompanha desde que passei a me entender por gente. Após enrolar um pouco na cama, levantei, coloquei uma roupa comum e fui à padaria, a duas centenas de metros da minha casa. O relógio marcava 10:20h da manhã.
Caminhei, entrei na padaria, pedi os pães e me dirigi ao caixa. Neste exato momento, os ruídos peculiares, tão conhecidos (infelizmente) por mim, de disparos de pistola e fuzil ecoaram no ar. Em seguida, vi dezenas de pessoas entrando na padaria, correndo, com cara de desespero. Estava claro. Uma troca de tiros estava ocorrendo àquela hora da manhã. E pela intensidade do som, a escaramuça acontecia a poucos metros de onde eu estava.
Perguntei a um homem que chegou com os olhos arregalados, puxando a filha, de aproximadamente seis anos, pela mão, se eram Policiais Militares que estavam atirando. Diante da resposta afirmativa, comecei a caminhar no fluxo contrário ao da multidão que ainda entrava no estabelecimento, para tomar ciência do que estava acontecendo de verdade. As pessoas me olhavam intrigadas com o fato da direção tomada por mim, ser exatamente a direção da rua, onde acontecia o provável confronto.
No trajeto até a porta da padaria, meus ouvidos colheram algumas informações. Dois Mikes perceberam a presença de dois homens em uma moto sem identificação e resolveram empreender perseguição aos mesmos. Logo, os suspeitos adentraram uma rua transversal à principal, historicamente dominada pelo tráfico de drogas. Ali, sacaram suas armas e dispararam na direção dos policiais, que revidaram de imediato.
Quando saí da padaria, os dois Mikes estavam na entrada da travessa, onde os suspeitos entraram. Um deles, que parecia ser um cabo, estava bastante nervoso, caminhando de um lado para outro, deixando-se até mesmo se expor a um ataque dos traficantes, pois indo de um lado para outro, com a pistola ao longo do corpo, deixava de estar abrigado. O outro parecia estar concentrado. Sentado sobre um dos calcanhares, fazendo visada constante na provável posição dos suspeitos.
De repente, mais tiros. Uma infinidade deles. Os suspeitos atiravam de fuzil, para afugentar os PMs, que permaneciam na posição, apesar da inferioridade de armamento. Temi pelo pior. Quando ouvi as sirenes que denotavam a aproximação de mais uma viatura, senti-me aliviado pelas vidas dos colegas. Naquele mesmo momento, resolvi ir embora.
Diante do olhar incrédulo da pequena multidão que se aglomerava na padaria, saí em direção à minha casa, quase que no exato momento em que a equipe que chegou como reforço, começou a disparar freneticamente seus M-16 e FALs. Era, realmente, um ruído ensurdecedor. Concentrei-me no meu caminho. Estava numa direção perpendicular à linha de tiro e me afastando do ponto de conflito. As chances de uma bala perdida diminuíam, na medida em que eu me aproximava de casa. Caminhei em uma rua deserta, com partes de olhos pontuando as janelas, observando o evento. Um pouco mais adiante, em frente ao condomínio onde moro, o trânsito estava parado. Uma fila de carros aguardava o fim do tiroteio, que recrudescia. Muitos perguntavam para mim, único ser vivo na via, se estava “tudo tranqüilo”… Respondi que sim, desde que não ficassem na linha de tiro.
Diante de pessoas apavoradas e entrincheiradas em bares, farmácias, bancas de jornal e automóveis, cheguei à minha casa, onde minha mulher e meu filho do meio me esperavam no corredor, com os olhos arregalados.
Como já disse aqui algumas vezes…Os habitantes deste universo onde vivo têm visões bastante peculiares do terror…ainda mais, se já estiveram vivendo o terror, como já me ocorreu algumas dezenas de vezes. Mais uma vez, senti-me impotente…sem perspectiva de dar um futuro melhor para os meus filhos. Percebi novamente o quanto nós, policiais, somos expostos desnecessariamente ao horror de uma guerra que começou há séculos. Vi a coragem dos colegas Mikes…que jamais tiveram por aqui, o respeito que merecem.
Divido com vocês, meus caros. Para que tenham idéia de como a paz é frágil…de como é possível um mar de tranqüilidade se transformar em verdadeiro inferno em um breve piscar de olhos.
Sobre este texto
Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.
7 comentários
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Sandro, estou acabando de ler, fiquei preocupada, não acho certo vcs continuarem morando aí, expostos, ainda mais na sua profissão que aí na área todos sabem qual é.
Sei que não existe mais lugr realmente tranquilo, mas EU, me sentiria muito mais tranquila sabendo que vcs estariam longe daí.
Se cuide, que Deus lhe abençoe e lhe guarde. Bjs. -
caramba Sandro, que rua é essa? fiquei curioso pra saber em qual padaria aconteceu isso…
abraços
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Mãe,
Eu gostaria muito de sair daqui…Entretanto, ao contrário do que muitos pensam, policiais federais não ganham rios de dinheiro. Comecei minha vida na PF com família e não tive como guardar muito. Com três filhos, as coisas são bastante duras. Mas tenho fé em Deus e no destino que preparou para mim.
Um beijo, mãe.Pedro,
A rua é a Mário Viana, em frente ao Império da Banha, nas proximidades do Hospital Santa Marta. Existe uma rua transversal sinistra…e é sinistra há mais de duas décadas.
Aproveito para indagar sobre os textos que lhe mandei.
Um abraço, parceiro. -
Nada que um "bombardeio estratégico de Napalm" não resolva…principalmente nos "covís" onde estes marginais moram!!!
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Ainda não sou PF. Estou de férias no Rio vou embora só no final de janeiro. Minha esposa fica falando pra virmos morar aqui, que é o sonho dela!!! A cidade é linda demais, mas confesso que a vida de um policial aqui não deve ser nada fácil. Mesmo de folga e tudo. Deve ser tensão 24/365.
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é meu caro, onde esse mundo vai parar. Podia ser eu andando de bicicleta por ali né Sandrão.. Um abraço!
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