Falar de milícia e trafico de drogas, no Rio de Janeiro, acaba por me remeter a grande obra de Gabriel Garcia Marquez, “Crônica de Uma Morte Anunciada”. No livro, todos sabiam que uma tragédia ia acontecer a Santiago Nasar, que, de certa forma, era alguém muito querido por todos na cidade. Contudo, absolutamente ninguém fez qualquer coisa que pudesse impedir o desfecho cruel da estória.
O enfrentamento nunca será solução definitiva para o problema de violência urbana, em uma metrópole como o Rio. O fortalecimento do tráfico, que hoje sofre com a queda nas vendas no varejo de suas bocas, e o surgimento das milícias, fazem parte de algo esperado por quem vive e pensa segurança pública de forma coerente.
A milícia é um monstro criado pelo próprio governo ( ou governos, levando-se em conta que processo de deterioração do poder de segurança remonta ao início da década de 80 ).Transformaram os agentes de segurança publica em párias da sociedade, aproximando-os de forma promíscua, do que havia e há de pior, em termos de bandidagem. O abandono, a falta de perspectiva e uma noção, criada ao longo do tempo de que unidos e armados poderiam ser ( e são, muito ) poderosos, levou-os ao estágio ( inicial, diga-se de passagem ) no qual se encontram hoje.
Existem territórios inteiros, bairros e distritos, do Rio de Janeiro, que já são dominados pelos milicianos, que agora cobram o que lhes foi negado contundentemente há tempos. Não há muita esperança de desmantelamento desse esquema criminoso, a curto e medio prazo, pois há uma cultura secular dentro das polícias, que gira em torno de uma grande irmandade. Por mais que o policial, de qualquer posto ou cargo negue, em sua maioria, preferirá o miliciano ao traficante.A visão dos agentes públicos envolvidos com o crime organizado passou a ser empresarial, onde a diversificação dos negócios é a tônica. Empreendimentos como a mafia das vans e a “gatonet” são pequena pontas. A coisa é muito maior e o esquema de ocupação territorial e divisão de poder é muito mais amplo que a sociedade pensa.
Do outro lado, assistimos o estrangulamento da rentabilidade do tráfico de drogas, que vem obrigando os criminosos dos muitos “comandos”, também, a diversificar seus negócios. Hoje, o consumidor prefere tocar a campainha do apartamento ao lado, pagando mais caro pelo entorpecente, do que ir à boca, arriscando-se a estar no lugar errado na hora errada.
A forma contundente com que a classe média abraçou o comércio de drogas, também vem obrigando os traficantes a fazerem investidas em outras áreas, nem sempre bem sucedidas.No caso do tráfico, a prevenção é a melhor política à longo prazo. No médio é curto prazo, as ações de inteligência somadas às operações táticas, com unidades especializadas, visando a contenção máxima de danos colaterais, são as mais indicadas para a situação do RJ, segundo estudos da própria SENASP e do DPF.
Participo de seminários e debates sobre o tema, e mostro de forma clara, que é impossível evitar uma incursão, quando há conhecimento de um paiol de armas ou um mini-laboratório de beneficiamento de droga em uma comunidade. Se a polícia sabe e não vai, é ela quem incorre no ilícito. Logo, certos embates são INEVITÁVEIS.Em um seminário do qual participei, com a deputada Marina Magessi e o ex-capitão do BOPE Rodrigo Pimentel, isso foi colocado para todos que se dispuseram a participar.Eu mesmo não acredito no combate, como política de segurança.
Investimentos em treinamento dos agentes de segurança, bem como em equipamentos de comunicação e uma aproximação com a sociedade, de forma geral, surtem um efeito maior.Policiais mal treinados e sem noções de cidadania são um perigo para todos nós.
Por fim, não podemos esquecer de investimentos em políticas sérias para as crianças e adolescentes de todas as classes, que os aproximem de coisas saudáveis, uma vez que a geração adulta que hoje comanda o crime já está perdida. A esperança para o Rio é que as novas gerações, e isso envolve as crianças e adolescentes de hoje, não queiram se envolver, por conta própria, na máquina de violência que se move.
Parabéns pelo blog! Não o conhecia, mas ganhou aqui um admirador e pretendo acompanhar assiduamente.
Quanto à situação do Rio de Janeiro, falando como um carioca exilado no sul, é realmente muito difícil. Cada vez que retorno para passar férias, levo uma semana para me acostumar com o impacto visual impressionante que nos causa a pobreza e desorganização generalizada!
Sempre me pergunto: por onde começar?
Será que tem jeito? Torço que sim!
Com tudo isso, ainda é uma cidade belíssima e com pessoas apaixonantes!
Um abraço