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Contos do ANJO da NOITE…Santa Teresa

Por Pensamentos Imperfeitos Publicado em 08 de janeiro de 2009 Atualizado em 18 de agosto de 2026 6 min de leitura
Dinah sabia que tinha cometido uma grande besteira, quando foi voluntária para ser a motorista da noite, sem beber absolutamente nada, deixando seus amigos em casa após a noitada, um por um. Pior ainda foi a escolha de deixar o Beto por último.
“Só porque eu acho aquele cara um gostoso…Saco! Agora estou aqui, perdida nas ruas de Santa Tereza, no meio da madrugada.”
Beto era seu colega de faculdade e a azaração entre eles corria solta já havia alguns meses. Para a jovem estudante de odontologia, ele era um alvo a ser abatido em pouco tempo. Naquela noite, fizera planos bastante ousados, que seriam colocados em prática após os outros colegas serem deixados em suas casas. Dinah só havia esquecido de uma coisa: combinar seu plano com o próprio Beto, que dormiu pesadamente no carro da bela loura de um metro e sessenta, até ser acordado por ela, na porta de casa.
Após se despedir de forma atrapalhada de Dinah, o jovem embriagado desapareceu pela portão do sobrado onde morava, deixando-a com um misto de raiva e frustração. Agora, dirigia seu Fiat Stilo pelas ruas escuras de Santa Tereza. Apesar do temor, procurava guiar seu carro com decisão e firmeza, esticando o olhar na tentativa de vislumbrar uma saída rápida da rua onde se encontrava.
Já se aproximava da via que dava acesso à avenida mais iluminada, já fora do bairro, quando o que mais temia aconteceu. Dois homens apontavam fuzis na direção de seu carro, bem no meio da rua estreita, impedindo qualquer chance de reação por parte de Dinah.
– Perdeu piranha!!! Desce do carro agora!!! – gritou o rapaz mais alto, que vestia uma calça jeans e uma camiseta de malha azul, enquanto o mais baixo já corria para abrir a porta do carro, puxando a loura pelos cabelos para fora. Quando caiu no chão, levou um chute violento do garoto mais baixo, cuja negritude da pele deixava visível apenas os olhos e o sorriso na rua escura.
O mais alto, louro como ela, levantou-a bruscamente segurando-a pelo braço, arremessando-a contra a lateral do automóvel.
– Aí sua putinha…vou querer seus cartões e suas senhas, beleza?? – falou bem próximo ao rosto dela, segurando seu queixo com força. – Me dá também teu celular, que você vai falar para o teu pai arranjar uma prata boa pra gente.
O estômago de Dinah revirava-se de pavor. Podia sentir o hálito nojento do bandido, que apesar de aparentar ter usado drogas, parecia bastante consciente de suas ações. Seu pânico aumentou ainda mais quando percebeu que o outro, o mais baixo, que usava uma bermuda vermelha e uma camisa pólo, se juntou ao louro, e os dois começaram a olhar para ela como se ela fosse um pedaço de carne a ser devorado.
– Aí irmão. A rua ta escura pra caramba. Mas a mulher é filé, meu camarada. – disse o negro, ainda com um sorriso sádico na face. – Quer ver só?? Aposto que os peitinhos dela são rosados. – falou num misto de euforia e ira, no mesmo instante em que puxou a blusa e o sutiã da jovem para baixo, deixando seus seios à mostra.
Dinah já não conseguia mais pensar em nada. O terror a dominava por completo. Sentia a boca seca e uma grande vontade de vomitar, que aumentou ainda mais, quando os dois abocanharam de forma ensandecida seus seios. Seu grito cortou a noite escura…Sabia que seria tratada como um animal.
Longos segundos se passaram, com os dois marginais mordendo e chupando todas as partes do seu corpo que estavam descobertas, até que um som abafado foi ouvido, ao mesmo tempo em que Dinah sentiu seu corpo livre das mãos dos bandidos. O pânico, que ainda tomava conta dela, era visível agora nos olhos dos dois marginais.
Uma figura enorme, completamente negra, atingiu o maior deles com um potente soco no meio da coluna, fazendo-o perder as forças nas pernas. Só não caiu, porque a criatura negra segurou-o e o ergueu sobre a cabeça, diante dos olhares aterrorizados de Dinah e do outro bandido. De uma forma violenta, jogou o corpo do louro violentamente para baixo, de encontro ao seu joelho, partindo sua coluna ao meio como se fosse um graveto.
O outro marginal, tentava recuar, apontando sua arma na direção da figura negra, que ostentava um capuz que impedia qualquer possibilidade de ter seu rosto vislumbrado. Mas seus passos eram pesados como se estivesse no lodo. O medo o havia dominado por completo. Assistiu aterrorizado o gigante encapuzado avançar na sua direção. Não pode perceber o exato momento em que a mão direita do homem vestido de negro encontrou seu pescoço, puxando-o abruptamente para perto do seu rosto. Nesse momento, o jovem negro, que esperava conseguir algum dinheiro num seqüestro relâmpago, além de se aproveitar de um belo corpo de mulher, teve a visão aterradora da falta de piedade estampada no olhar gelado da criatura que apertava sua traquéia lentamente, ao mesmo tempo em que o erguia do chão.
– Está gostando, seu escroto? – disse a figura negra – O medo é um sentimento ruim, não é mesmo?? O mais engraçado, é que eu posso sentir o cheiro do medo.
O bandido já não conseguia mais sorver uma única gota de ar. Perdera o controle de suas funções e a urina escorria pelas pernas.
– É … é o medo que animais como você exalam pelos poros, que me faz andar pela noite…para varrer todos vocês, seus merdas, da face da Terra.
Foi a última coisa que o marginal ouviu, antes de sua traquéia ser destroçada pelas mãos do homem. Um pouco mais distante, a alguns metros, Dinah pôde assistir o corpo do jovem negro ser largado no chão pela criatura da noite, como se fosse um pedaço de nada. Observou-o quando se aproximou, passou ao seu lado, abriu a porta do carro e disse:
– Entre. Já passou da hora de ir para casa.
– Você… – Dinah tentou articular algumas palavras.
– Vá embora. – disse logo após a loura sentar no banco do motorista.
– Você é o Anjo? – balbuciou – É o Anjo da Noite?? É real?? Não é uma lenda urbana? Uma estória inventada por meia dúzia de malucos??
– Eu não acredito em Anjos…O que dizem de mim, pouco faz diferença no meio da madrugada violenta desta cidade sem dono…Vá embora e procure esquecer de tudo o que houve aqui. É o melhor para você…
Após as últimas palavras, o Anjo deu as costas para onde estava o carro e caminhou lentamente, até desaparecer completamente nas sombras. E a estudante de odontologia, a partir dali, passou a acreditar de forma intensa, que havia um Anjo nas ruas do Rio, para cuidar daqueles que já não tem mais esperança alguma.

Sobre este texto

Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.

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