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Contextos Urbanos: “Você se importa?”

Por Pensamentos Imperfeitos Publicado em 14 de julho de 2015 4 min de leitura

Eu ando pela cidade. Independente da violência, do caos e da insensatez, eu ando pela cidade. Para percebê-la. Para saber onde estou. Mais. Para saber quem sou. E não é apenas Niterói. Não é o Rio de Janeiro. Não. As cidades são os retratos dos homens e mulheres nos quais nos tornamos.

 Um dos momentos mais difíceis dos meus dias de trabalho no plantão da Polícia Federal, em Niterói, é o momento em que retorno do horário do jantar, para reassumir meu posto. Sempre por volta de 23h, vejo uma cidade que a maioria dos cidadãos não vê. Mas sabem que existe.

 Passo pelos moradores de rua. Preparando-se para mais uma noite ao relento. Muitos deles ali por uma questão de escolha. Sim. Acreditem. Muitos escolhem a rua. Deixam tudo para trás. História, trabalho, família. Querem ter seus nomes apagados. E mergulham na dureza de viver nas ruas. Nós do Projeto Geração Careta tentamos, certa vez, de maneira até ingênua, trazer alguns desses indivíduos ao mundo dos vivos. Descobrimos incrédulos, ex-empresários, ex-funcionários públicos, cujas famílias sequer imaginam onde estão. E ouvimos de forma contundente, que se a família soubesse deles, que mudariam de cidade. Simplesmente, não querem fazer parte do mundo.

 Um pouco mais adiante, observo grupos de jovens, menores de idade em sua maioria, amontoados sob as marquises de nossa avenida principal, usando drogas. Quase todos entorpecidos pelo crack. Andam de um lado para outro, como zumbis. Empurram-se. Riem de sua própria desgraça. Vêem um senhor, provavelmente um dos últimos boêmios do Centro da cidade, e correm para cima dele, desistindo ao perceberem a presença de um carro de polícia. Diminuo a velocidade do carro, quase paro. Olho insistentemente para eles, tão jovens, quase todos crianças. Penso que muitos de nós dizem se importar. Mas como é isso? Importar-se diante da televisão ou lendo as páginas de um jornal? Melhor… A indignação vem através de discursos inflamados nas redes sociais, que exigem providências de Deus e do mundo em relação ao perigo que esses “crackudos” representam. Concordo. São um perigo. Mas a maior parte de nós os merece.

 Na reta final, ultima rua na qual transito para chegar ao meu destino, passo por pessoas envolvidas em suas roupas brilhantes, coloridas, chamativas, com penteados não menos exuberantes e pedaços generosos dos seus corpos à mostra. Travestis e prostitutas dividem seu espaço nas ruas do Centro de Niterói e do resto do mundo. Você é capaz de se lembrar deles? Provavelmente, apenas no momento em que os vê. Talvez o mesmo acontecesse comigo, se não tivesse a obrigação de passar por esse caminho tantas vezes no ano. Somente sendo um tolo para acreditar na máxima de que esses indivíduos, são homens e mulheres de “vida fácil”. Sinceramente, não vejo que facilidade há em alugar seus corpos para sobreviver, quase sempre à mercê de algozes, que são os verdadeiros “donos” dos espaços habitados pela prostituição de homens e mulheres. A violência e o abandono são, quase sempre, a tônica.

 Com tudo isso, o trabalho de plantão acaba se transformando em momentos sem fim de reflexão sobre como fazemos questão de ignorar pessoas que vivem sem a menor dignidade. Gente que desceu aos últimos degraus de tudo o que é sensato. Que são invisíveis para a maior parte dos “cidadãos de bem”, que jamais andaram pelo submundo. Nós, policiais, infeliz ou felizmente, tivemos a oportunidade de conhecer os guetos. A realidade se desvenda nua, com toda a sua crueza para nós. E muitos de nós, cães de guarda de quem descansa placidamente, enquanto o mundo se acaba, também se esforça para que esses personagens sejam invisíveis. Entretanto, alguns, incomodam-se de forma cortante. Sequer respiram bem, diante da realidade do mundo.

E você, que lê estas linhas através do seu PC, tablet ou smartphone? Quem é você? De que lado você está? Que mundo você deseja para o mundo?

Sobre este texto

Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.

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