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Contextos Urbanos: Tristeza e Esperança

Por Pensamentos Imperfeitos Publicado em 12 de abril de 2016 Atualizado em 18 de agosto de 2026 3 min de leitura
Eram duas horas da tarde e eu voltava de scooter do Centro de Niterói. Quando passei em frente a um mercado especializado em frutas e hortaliças, na Marques do Paraná, percebi um jovem correndo e gritando, atrás de dois garotos de bicicleta. Perguntei ao rapaz se ele havia sido assaltado e o mesmo disse: “Sim”.
Por uma dessas reações que apenas o instinto pode trazer, numa fração de segundo virei a moto na contramão da via, na mais absoluta conduta “suicida” àquela hora da tarde, e iniciei a perseguição aos dois assaltantes que pedalavam furiosamente na avenida.
Em segundos alcancei o que havia ficado para trás. Gritei para ele parar, ele viu a pistola em minha mão e começou a chorar. Devia ter uns 9 anos no máximo. Como não vi nenhum produto de roubo em suas mãos, descartei-o e segui atrás do outro, que àquelas alturas já “ziguezagueava” entre os carros da Amaral Peixoto. O rapaz pedalava tão rápido, que até para mim, sobre uma moto de 125 cilindradas, foi difícil alcançá-lo.
Quase em frente ao Liceu Nilo Peçanha, emparelhei com o suspeito. Quando ele viu a pistola, tentou largar a bicicleta e correr, mas a minha atitude incisiva o desestimulou. Mandei-o colocar as mãos na cabeça e deitar. Segundos necessários para ver que o garoto não estava armado. Sim, era um garoto. No máximo uns 13 anos.
Tomado por uma grande sensação de impotência diante do mundo, arremessei o capacete longe e xinguei alguns palavrões. Vi a antítese de tudo o que busco fazer no projeto social que coordeno. Uma criança, tomado de ódio da sociedade. Falando todo o tipo de ofensas ao assaltado, que veio correndo, após saber que o suspeito havia sido detido.
Algumas pessoas insinuaram agredir o menino. Em silêncio, mostrei que aquele preso era minha reponsabilidade e fiquei com ele, que pedi para sentar atrás de um carro, para evitar a avidez das câmeras dos celulares, até a chegada dos colegas da polícia civil. O final disso todos já conhecem. Mais e mais ódio, mesmo que estejamos ao lado da lei. Aquele garoto é como uma ostra na qual sua pérola é a raiva que sentem de nós.
No dia seguinte, fui convocado para uma mega operação da Polícia Federal. Minha equipe pegou uma área considerada “de risco” e para lá fomos a fim de cumprir nossos mandados. No local a presença do crime é visível através dos inúmeros buracos de bala nos muros e inscrições de facções criminosas.
Em meio àquela tensão, com meus colegas fazendo o perímetro da área, dois garotos com uniformes escolares da rede municipal passam por mim. Seguem adiante, com o olhar fixo no distintivo e no fuzil que eu carregava. Eu sorri. Eles fizeram sinal de positivo. Eu acenei para que chegassem perto. Eles pediram para tirar uma foto. E eu a tirei, com os dois garotos fazendo sinal de positivo e com belos sorrisos no rosto.
Sim. O mundo não está perdido. Existem muitos com ódio, como o que eu prendi um dia antes. Mas também há aqueles que ainda podem ser trazidos para outra realidade. E muito disso depende de nós. O principal? Mudar suas referências.

Sobre este texto

Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.

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Sobre o autor

Pensamentos Imperfeitos

Escritor e cronista

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3 comentários

  1. Excelente texto, me fez refletir bastante a respeito. Enquanto houver esperanças, haverá a possibilidade de mudar essa realidade que vivemos hoje.

  2. Boa noite Sandro! Sempre acompanho seus textos e os reflito com toda atenção! Sou professor (estado do ES) de uma escola do interior, onde as mazelas sociais chegam sorrateiramente. As vezes me deparo com situações desanimadoras. Escolas e alunos largados ao acaso, por um um sistema contraditório, que beira a hipocrisia! Mas aí chega aquele aluno – dessa mesma idade – com chinelo surrado e mochila na costas e lhe dá um abraço, como se fossemos a única referência dele… Você tem razão Sandro. Muito e muitos dependem de nós! E estes passam a ser nossas referências.
    Saúde e sucesso em seus projetos !!!
    Professor Drago.

  3. Por que a pf vai cumprir mandado de prisão em desfavor de políticos ou empresários,os quais jamais estariam armados ou tentariam alguma ação contrária à ordem pf…e no entanto estes agentes carregam armas mirabolantes que se qr servem pra outra finalidade a não de demonstrar poder de fogo…. estas armas deveriam ser usadas pela pm….a polícia do povo

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