Eu, que estou na Polícia Federal há 20 anos, sinto medo. Ando temeroso pelas ruas da cidade. Não. Não é por mim. Eu quase nunca serei alvo dos bandidos que nos assolam e visam covardemente os mais fracos. Mulheres, crianças, idosos. Não, eu com minha velha “scooter”, na verdade uma improvável combinação de homem grande com uma pequena motoneta posso despertar, num primeiro momento, o riso de algum assaltante que por acaso se deparar comigo.
Meu medo é por você, a quem jurei proteger. Por amigos que tenho. Pela minha família. Pelos meus alunos. Temo a todo instante receber mensagens de texto ou ligações pedindo ajuda para seus infortúnios ligados ao descontrole da segurança pública. Agora que os grandes eventos acabaram, os criminosos que para cá vieram já perceberam que nossa cidade é um lugar propício para suas covardias.
Cada vez que sou acionado por alguém próximo, realimento minha certeza de que precisamos ser contundentes na reação a tudo isso. Colocar todo o nosso aparato nas ruas para dar o mínimo de segurança a população como um todo. Seja num bairro dito nobre ou na última casa de uma comunidade por ora dominada pelo crime.
Simplista apontar como solução a longo prazo legalizar as drogas. Que drogas? Todas? Acham sensato legalizar o crack, por exemplo? Somente um desconhecimento total do tema pode levar alguém a falar sobre “dose segura” do crack. Não. Não existe isso para esse embaixador do inferno na terra. Quando o crack chega na vida de alguém, sua missão é acabar com essa vida.
Ainda versando sobre legalização, difícil não desejar um bom debate quando falamos da maconha. Mas, mais difícil ainda é fazer os defensores da cannabis entenderem que, se por ora é uma droga ilegal, vendida apenas por criminosos e que o dinheiro que esses usuários gastam abastece a engrenagem criminosa que traz armas de guerra para as nossas vidas, existe sim uma parcela desses usuários no caos reinante. Não é uma questão de moralismo. É um olhar claro e objetivo para legalidade.
Ainda que uns defendam que tenhamos que coibir o comércio de armas, coisa que concordo sem ressalvas, chegamos a uma equação quase matemática. O tráfico corrompe a polícia e políticos, compra armas, expande seus domínios. Para isso precisa de dinheiro em proporções enormes. E se nem eu nem você, leitor, fazemos doações espontâneas às quadrilhas, essas fortunas vêm do comércio de drogas no qual está inserida a tão defendida maconha. Simples. Por mais que meio mundo ache que deve ser legalizada, esse mesmo meio mundo deve ter consciência que seu comércio é criminoso e movimenta os traçantes no céu.
Consciente é apontar para a construção de uma sociedade sem barreiras ou abismos sociais. Isso sim funcionará no médio e, principalmente, no longo prazo. Educação e saúde de qualidade, saneamento, oportunidades. Coisas que foram esquecidas ao longo de décadas fazendo com que vivamos imersos neste triste caos que não para de se expandir. Já perdemos tempo demais. Temos que começar agora.
Parabéns pelo excelente texto!