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Contextos Urbanos: O eterno desejo de segregar

Por Pensamentos Imperfeitos Publicado em 30 de julho de 2015 4 min de leitura

Dia desses ouvi um indivíduo dizer que não entende como projeto social uma iniciativa na qual é possível identificar jovens possuidores de aparelhos celulares de última geração. Na verdade, foi mais além. Disse que não aceitava o fato de que num pré-vestibular dito comunitário estudem pessoas com condições de pagar um curso particular.

Devo agradecer a Deus por ouvir coisas assim. Afinal, significa que minha capacidade auditiva está em dia e posso ter ideias cada vez mais claras sobre a forma de pensar de parcelas da sociedade. Percebi, então, uma segregação em sentido contrário, sem sentido, sem cabimento, sem coerência.

A iniciativa é o Projeto Geração Careta, criado em 2003 e que atende aproximadamente 400 jovens no complexo esportivo do Caio Martins. Ali são oferecidas aulas de artes marciais de forma totalmente gratuita em dois dias da semana. Pessoas muito pobres treinam ao lado de pessoas muito ricas. O projeto é um movimento cidadão, gerido por voluntários, que não recebem apoio financeiro de espécie alguma de quem quer que seja. De forma clara, os professores do projeto têm como premissa não cobrar absolutamente nada de quem quer que seja.

Outro “braço” da iniciativa, que foi o primeiro a entrar em funcionamento há 12 anos, é o ciclo de palestras de prevenção à violência e ao abuso de drogas, que são ministradas em escolas públicas, privadas, instituições de segurança e empresas. Uma frase ouvida sempre desde o início é: “Vocês não cobram para dar palestra?Por que?”. A resposta? Porque não. Porque nem tudo pode ser negociado com valores. Porque existem pessoas com ideais verdadeiros de inclusão social. Porque alguns resolveram deixar a mera retórica, tão presente hoje nas redes sociais, e mergulhar na realidade, tentando criar mudanças plausíveis no meio. Acreditem ou não, o fato de não haver cobrança de valores suscita em algumas mentes a ideia de que há interesses obscuros por trás disso.

Talvez sim. Um interesse grande em fazer a diferença. Se é obscuro ou não, aí fica a critério de quem quiser conhecer a iniciativa, que ao longo dos seis anos de implantação do ensino de artes marciais retirou das linhas de frente do tráfico, nada menos que 15 garotos. Eram soldados do crime. Largaram as armas para treinar Muay Thai, Jiu Jitsu, Taekwondo ou Kali Silat. Acham pouco? Quinze em seis anos? Pensem sempre em progressão geométrica quando o assunto são os estragos causado por um jovem raivoso com armas em punho. Desses quinze, três estão matriculados em universidades. E todos trabalham honestamente.

Por fim, surgiu o pré-vestibular comunitário, que hoje funciona de segunda a sexta à noite em um improvável auditório situado no ginásio do Estádio Caio Martins. Digo improvável porque a massa da população de Niterói desconhece sua existência. Mas ele existe. E conta com um curso preparatório para os vestibulares, com professores de todas as matérias que são totalmente voluntários nisso. Diferente de algumas iniciativas semelhantes, dignas de muitos aplausos, esse pré-vestibular não faz triagem por nível social. Se você, caro leitor, for até lá observar a dinâmica das aulas, verá alunos da rede pública, de escolas particulares médias e grandes, além de pessoas que terminaram seus estudos há muitos anos e desejam realizar novos sonhos, que só são possíveis através da educação.

O fato de observar um garoto rico sentado ao lado de outro com condições menores fez surgir questionamentos em algumas pessoas. “Não é um projeto social”. Tem ricos e “playboys”. Como mencionei acima, implicaram muito com os telefones celulares. Realmente eles os possuem. Alguns ganharam dos pais. Outros, que trabalham desde a infância para ajudar a família, fizeram grande esforço para tê-los. Estão todos no mesmo barco.

Uma iniciativa como essa cumpre seu papel, quando é possível ver os dois mundos interagindo. Ricos e pobres saindo juntos, frequentando os mesmos lugares e fazendo questão de registrar isso nas redes sociais. A missão foi cumprida. As barreiras foram quebradas. Falta apenas quebrar preconceitos de boa parte da sociedade, que insiste em manter o eterno abismo social que nos persegue desde sempre.

Sobre este texto

Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.

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