Questionando a atitude do comerciante que agrediu uma Guarda, na saída de uma festa, li de um amigo que Jesus Cristo cometeu um grave delito ao transformar água em vinho em seu primeiro milagre. Ele disse isso, baseado na linha de raciocínio que coloca o álcool como a droga mais perigosa para a sociedade, desde tempos imemoriais. Na verdade quis derrubar essa tese, colocando-me em xeque.
Eu poderia citar exemplos ainda anteriores a Jesus, utilizando a história bíblica. O próprio Noé se embebedou, despiu-se e causou uma convulsão em sua família. Mais uma vez o “inocente” álcool foi protagonista.
Aos meus amigos que ficam incomodados quando menciono a simples cervejinha como algo nocivo, não precisam se armar de contra-argumentos. O problema não está em usar o álcool ou qualquer outra substancia. O grande vilão da história é o abuso. Qualquer coisa consumida em níveis descontrolados, invariavelmente trará problemas. E não será diferente com a “loura gelada”. Ela também pode ser um monstro na vida de quem não consegue reconhecer seus limites.
Mergulhei algumas semanas atrás numa discussão sobre a propaganda de cerveja na TV. Em fração de segundos surgiram os defensores das cervejarias a afirmar que isso não reduziria o uso. Mas, mais uma vez, não se trata do uso. No caso das propagandas, temos mesmo que proteger crianças e adolescentes, que são submetidos à magia do marketing, vendo em horário nobre seus ídolos da música e do esporte consumirem cerveja e esbanjando sorrisos. Por mais que digam que o Estado deve regular pouco a publicidade, o Estatuto da Criança e do Adolescente é claro quanto à proibição de venda de bebidas e quaisquer substâncias que causem dependência a menores de 18 anos.
Muitos arvoram bandeira de que bebem “socialmente”. Talvez, o próprio comerciante que agrediu brutalmente a moça seja um desses. Mas o limite entre o uso e o abuso é tênue. Uma breve pesquisa irá revelar que 60% dos afogados, 50% das vítimas de atropelamento e 50% das vítimas de homicídios estão sob o efeito de álcool. Muitos questionam esta última estatística. Acreditam que o assassino é que está bêbado. Mas esquecem que o ébrio é, por natureza um folgado.
Outro dado superlativo são os mais de 70% de atos de vandalismo causado por pessoas alcoolizadas. Os números estão aí. São frios. E refletem uma sociedade irresponsável e de padrões morais flutuantes. Cobramos muito do vizinho , mas não olhamos para nossas próprias mazelas.
Enquanto isso, assistimos impassíveis o mergulho da juventude, de forma cada vez mais precoce no mundo das drogas. E, que me desculpem aqueles que defendem coisas diversas, mas são as drogas lícitas como o álcool os verdadeiros passaportes para a terrível viagem da dependência química.
Quanto ao ato de Jesus. Não. Não foi má fé. Afinal o novo vinho era melhor que o primeiro. O que deturpa o ato são aqueles que, simplesmente, desconhece o sentido da palavra limite.
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