Consciência Tranquila…Dormindo em Paz
Muitos me perguntam sobre isso. Querem saber como é ser policial em casa, indo comprar pão na padaria, passeando com os filhos no shopping… “Você vai na padaria armado?” perguntam. Ou “você anda armado sempre?? Mesmo com a sua família??” Reconheço a pertinência dos questionamentos, ainda mais pelo fato de muitos estarem avaliando muitos pontos, antes de escolherem definitivamente a carreira policial, seja de que polícia for.
O primeiro ponto é: Sim, eu ando armado quase sempre. Não chego ao ponto de ir comprar pão, descer para o playground do prédio ou buscar o jornal na portaria armado. Não isso, nunca. Mas para todos os outros lugares, carrego minha arma comigo. E, vejam, não é pensando em algo que possa acontecer comigo ou minha família. Não…Ando muito tranquilamente pelo mundo, mesmo já tendo sido responsável pela prisão de algumas ( muitas ) pessoas por aí. Não me assusta a possibilidade de encontrar qualquer uma das pessoas que extraí, mesmo que temporariamente, da sociedade. E essa falta de medo se resume a uma única coisa: eu sempre tratei TODOS eles com a maior DIGINIDADE do mundo. Muito mais do que vocês podem imaginar. Nesses anos de polícia, jamais encostei em um preso, de forma a agredi-lo. Muito fácil seria, descontar minhas frustrações e minha ira em um ser algemado e incapaz de reagir. Confesso que sempre foi um exercício espiritual dos maiores, lidar de forma generosa com indivíduos que, momentos antes, dispararam suas armas contra mim e a minha equipe. Mas consegui manter o foco. Independente do crime, sempre os tirei do chão, arrumando lugares decentes para que se acomodassem. Levá-los ao banheiro, oferecer água e comida eram e são uma constante na minha forma de lidar com os presos.
Para que tenham uma breve idéia do que isso acarreta, ilustrarei com casos reais. Um indivíduo que prendi em 2003, hoje é alguém que faz questão de me agradecer onde quer que eu esteja. No lançamento do meu livro, deu-me uma caneta personalizada para que eu autografasse os exemplares. O momento da prisão já foi digno de menção. Eu e Golf estávamos à paisana e localizamos o indivíduo em seu estabelecimento comercial, que, no momento em que chegamos, estava cheio de clientes. Sorri para ele, abracei-o e falei no ouvido: “Irmão, somos policiais federais e estamos aqui para te prender. Sem escândalo, sem nada. Quem olhar de fora vai pensar que sou teu amigo. Disfarça e vem com a gente.” Dito isso, ele deu uma enrolada, deixou um funcionário atendendo os clientes e foi conosco para a Delegacia. No caminho, ciente do delito do rapaz, eu e Golf conversamos muito com ele, de certa forma, aconselhando-o. Logo depois que foi solto, voltou à Delegacia para agradecer.
Em outro momento, prendemos um “soldado” do tráfico, durante uma investigação grande que fizemos em Niterói. A coisa foi conduzida com tanta responsabilidade, que algum tempo depois, a mãe do rapaz me encontrou no shopping, com a minha família e depois de me cumprimentar, deu-me um grande abraço de agradecimento. Acho que esses dois casos ilustram bem o que penso de prováveis encontros com presos ou investigados. Definitivamente, isso não seria capaz de tirar o meu sono, se eu tivesse sono.
Inclusive, muitos amigos não policiais pensam nisso quando estão em minha companhia, em algum lugar. “Pô, Sandrão, a gente fica aqui sentado ao ar livre…você não tem medo de aparecer alguém que tua equipe prendeu?” Diante disso, meus caros, fiquem tranqüilos.
Então, acabo voltando a outro questionamento. Por que andar armado quase sempre? Procurarei ser objetivo. Simplesmente porque ser policial é muito mais que um simples emprego. Já tive a oportunidade de intervir por cidadãos de bem e não consigo sequer imaginar o que eu sentiria se não pudesse ter agido naqueles momentos. É por isso, meus caros…Pelos outros e não por mim. Peço sempre a Deus que nada de ruim aconteça a todos que me cercam. Mas peço também, que se algo malévolo ocorrer, eu seja capaz de fazer a coisa certa. Não me perdoaria se presenciasse um homem de bem sofrendo algum mal, e eu não tivesse condições técnicas de intervir. De forma definitiva, não é por mim… MESMO.
Escrevo este texto, até mesmo para que sirva de reflexão para aqueles que aspiram ostentar um distintivo, algum dia na vida. Pensem nisso com generosidade e desprendimento. Ser policial não é algo egoísta e mesquinho. Devemos, DE VERDADE, servir e proteger a sociedade. É para isso que fomos concebidos…é para isso que estamos aqui.
Grande abraço a todos
Sobre este texto
Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.
5 comentários
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Sandro,
É mto difícil para alguém, com instintos similares ao seu, ver e, muitas das vezes, não poder fazer muita coisa.
Eu já cometi algumas atitudes que mtos julgam loucuras (como correr atrás de bandido em meio a avenida e ainda prender o cara) … enfim, é nessas atitudes que eu realmente me encontro e cada dia mais sei do meu destino…
Te admiro.Abraço
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Ótimo exemplo.
Como você mesmo diz, precisamos de bons exemplos!
Parabéns!
Abraços
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Sandro
Excelente texto!
Vou encaminhar este post e o blog para a lista de e-mails do pessoal que, assim como eu, está indo daqui uns dias para a ANP.
Abraço -
Parabéns pelo bom trabalho. Não somente por esse post, mas o trabalho geral que este blog tem feito. Combater a médio prazo e ajudar a diminuir a violência, corrupção e formar acima de tudo PESSOAS!
[]s
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Muito bom esse texto. Talvez mude algumas pessoas pra melhor.