Carta ao Meu Filho
É um mundo realmente cheio de pessoas. Nem sabíamos se o planeta ia suportar a vida até aqui com esse tanto de gente. Pessoas do passado diziam que não nasceríamos, nós desse século XXI das contas humanas.
Fomos desenganados. Mas também como não poderia ser diferente, nos adaptamos. Os resultados, apesar dos pesares, são magníficos! É como faz a vida. Alguém deu um jeito na escassez de alimentos com uma tal de monocultura e tornou tudo relativamente mais fácil, aí então relaxamos e deixamos as revoluções das indústrias, dos serviços, alimentos e tecnologias tomarem para si todas as decisões que concernem à vida. Tinha aparecido um jeito estranho das pessoas buscarem o que precisavam.
Parece que em algum lugar construíram uma grande casa de onde saíam papéis, e de repente o seu leite, suas hortaliças, sua carne ou qualquer outra coisa deixou de ter certo valor e passou a ter outro na hora das trocas, e então todo mundo passou a ter que ir nessa casa (?!) donde agora saíam papéis e esses sim, eram capazes de comprar as coisas.
AS MILHARES DE COISAS que surgiram pra nos distrair na corrida do papel. E se pôs um preço em tudo, como fez-se a luz! Eu nunca entendi isso bem, por que cresci e sigo criança ufa, mas as coisas foram acontecendo assim e aqui estamos no séc XXI, arrasados pela corrida do papel, perigando estragar nosso chão, depredando com mais velocidade que se pode recuperar, contrariando o senso de que as descobertas e a tecnologia nos ajudassem a melhorar nossa experiência e caminhando com muita pressa em direção a um colapso.
Os homens foram conclamando as terras do planeta (que pertencem a quem?) para si a acumulando sem limites. Criaram mentiras em livros bonitos que não se movimentam, para justificar suas cruzadas, como a garantia do direito à moradia, educação, segurança alimentar, liberdade, justiça e paz. Ahhh, filho. Viemos nascer aqui no Brasil. Quanta história tem esse nosso chão. Mas esquece esses devaneios de tua mãe que envelhece. É parte do processo. Seja só esse menino em um mundo tão cheio de pessoas. Agora enquanto estamos aqui, apenas escuto seus passos arrastarem-se pela água, aquele som terno e ovalado, cheio de tons, que afaga os sentidos. O som de casa. A carícia na alma de sua voz de bebê se expressando com clareza inigualável.
Eu olho pra você fazendo seu próprio caminho fluir. É de onde viemos, sabe? Do som da água se deslocando para permitir nossa massa de passar através. Se a natureza não é por si só o início, meio e fim, o dono do tempo, da fome e do relento, já não sei. Que mágica te ver daqui. Só esperava que dentre essa multidão de outros seres como tu, pudesses ter a chance de ancorar próximo a outros como nós, para então assentar essa tua riqueza de menino solto, espontâneo e livre, que aprende astuto e só, sobre o convívio com esse mundo vivo.
Ter a quem dar as mãos faz toda a diferença. A ti me importarei sempre de acolher. Jamais estaremos sozinhos. Aprenda depressa: temos uns aos outros. Vou lhe dar o que hoje está mais em falta: silêncio para ouvir os sons menos óbvios. Vou te ensinar a produzir o seu próprio alimento. A ter autonomia. (Respeitando as ciências sociais e tudo que aprenderam todos que vieram antes propondo cooperação).
Estão a nos escravizar pela fome. A corrida perdeu o limite. A lógica da escassez nos condenou à fome. Te farei livre quebrando o cimento se precisar pois é da terra que brota tudo que você precisa para manter-se vivo.
Que você cresça ao redor dessa lagoa, se assim for.
Que haja lagoa, para os que cresçam ao redor. E depois outros.
Pra que haja mundo.
Pra que haja vida.
No meu amor por tudo, tem infinitude e cama para o bem estar fazer morada. E eu posso morrer fazendo isso, mas meu trabalho será no intuito de garantir que você e seus irmãos tenham, na sua infância, e enquanto eu puder, os direitos fundamentais que deveriam ter todos os seres, e pelos quais justificam a organização de um Estado.
Esteja desperto.
Prosperaremos. 🎈
Por Railane Borges… para Ravi…
Sobre este texto
Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.
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