Carnaval e Resquícios da Idade Média
Há 19 anos, li um livro da época do Renascimento, chamado “O Elogio da Loucura”, de Erasmo de Roterdam. Por mais incrível que possa parecer, uma obra com mais de 400 anos acaba por se encaixar perfeitamente na realidade atual. Tudo gira em torno de justificativas para o cometimento das loucuras, ou padrões comportamentais diferentes do que é comum, por todo tipo de pessoa.
Lembrando disso, não posso deixar de associar as linhas do renascentista à festa popular mais esperada do Brasil, que é o Carnaval. Desde muito cedo, tenho verdadeira aversão a tudo o que gira em torno das festas de Momo. Na casa dos meus pais, existem fotografias em preto e branco, que mostram um menino de olhos grandes, vestido de índio. A expressão do rosto denota toda a incompreensão de uma criança de poucos anos, por estar ostentando aquela fantasia.
Um pouco mais tarde, e aí eu devia ter uns cinco anos de idade, lembro de uma matinê no clube que eu freqüentava com meus pais, que era a Casa do Marinheiro, na legendária avenida Brasil. Meu pai, que sempre amou carnaval, levou-me ao salão onde estava ocorrendo a matinê e me incentivou a entrar em um dos inúmeros “trenzinhos” que percorriam o espaço. Naquela ocasião, eu estava fantasiado de Zorro. Não o Don Diego de La Veja, mas o Lone Rider, parceiro do índio Tonto. Pelo menos eu estava satisfeito com a fantasia, uma vez que eu adorava ver os episódios do dono do cavalo Silver. O problema foi a minha entrada no salão. Sempre fui uma criança pequena e fui literalmente atropelado ali. Senti um pavor enorme, perdido naquele mundo de gente. Talvez a aversão tenha começado dali.
O tempo passou e o destino quis que meu pai adotasse o hábito de passar os carnavais em um pitoresco clube em Maricá, a algumas dezenas de quilômetros de São Gonçalo, onde morávamos na minha infância. Isso me fez esquecer o carnaval, propriamente dito por muito tempo, pois passava aqueles dias na lagoa de Maricá.
Quando minha personalidade começou a se formar de verdade, percebi que a época do carnaval era meio que uma carta de alforria, uma espécie de passe livre para cometer as mesmas loucuras citadas por Erasmo de Roterdam no final da idade média. Confesso que, na minha visão do que é certo e errado, perceber que o carnaval era ( e ainda é ) uma época onde desvios sérios de conduta eram justificáveis, foi algo estarrecedor…
Vi namoros terminarem às vésperas do Carnaval para que um ou os dois namorados pudessem ter a liberdade necessária para exercitar sua promiscuidade. Pios, outros namoros não são terminados, mas isso não é suficiente para que a mesma promiscuidade seja colocada em prática.
Tão comum ouvir a expressão “Amor de Carnaval”…Ouvi muitas coisas…vi outras…pessoas que entregam suas intimidades a outras que mal conhecem…Sabem por que?? Porque é carnaval. Nessa época, tudo é permitido…
“Não, eu não costumo beber tanto…Bebi desse jeito porque é Carnaval…”
“Caraca!!! Nem me lembro da cara da mulherzinha que peguei!!!”
“Ih, mermão…conheci a mulher, conversei meia hora, arrastei para a areia da praia e ela já deu para mim… fez de tudo comigo…”
Coisas assim, são muito faladas…difícil compreender a ingenuidade do ser humano. Precisam se conceder quatro dias, para que sejam alegres, para que vivam de forma intensa, como se o mundo fosse acabar…de certa forma, esse mundo de serpentinas e pierrôs termina mesmo…a quarta-feira de cinzas é cruel nesse aspecto. Joga de forma rude, um balde de realidade sobre a cabeça do todos os foliões…
Para mim, uma época de buscar a paz de espírito…de esvaziar a mente…diferente das férias, no Carnaval, tenho a certeza de que dificilmente o meu telefone irá tocar para que algum problema operacional seja resolvido. Pela simples razão de que é uma época em que quase todas as operações nas mais diversas áreas são suspensas.
Mas continuo sem entender o que move as pessoas em sua busca pela realização de loucuras pessoais. Um dia, talvez, eu consiga olhar para os grupos de foliões, exauridos pela festa, insanos de álcool no sangue, caminhando pelas ruas como se não soubesse sequer o endereço de suas casas, e compreender o que os leva a depositar tantos anseios, tanta vontade de viver, durante tão poucos dias.
Sobre este texto
Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.
2 comentários
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"Durante o Carnaval muitas músicas disputam a preferência do folião e algumas caem no gosto do público para embalar o ano todo. Este ano a banda Asa de Águia trouxe uma novidade para a folia com a sua música “Vale Night”. Como no carnaval “ninguém é de ninguém”, o Vale Night veio para oficializar essa concepção…" http://www.jornaldamidia.com.br
É uma triste realidade!!
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Esse título vai para minha lista dos livros que comprarei para montar minha biblioteca. Gostei desse texto. Fez-me lembrar uma repúdia que tenho com o "Natal/Ano novo" que segue paralelamente a mesma linha.
Se no carnaval a desordem reina, no natal/ano novo a hipocrisia tem sua vez. Pessoas que não se procuram o ano todo, nunca lembram uma da outra, desejam "sinceros" votos de felicidade e prosperidade.
[]s