CAPITULO FINAL
Em algum lugar perdido do espaço-tempo…Não há registros de qualquer tipo…
O mundo emerge de uma última guerra. Uma guerra que o homem travou contra si próprio, onde foi capaz de vencer e ser vencido ao mesmo tempo. No mundo sem resquicios de civilização, apenas uma abstrata paisagem de desertos e ruínas.
Completando o cenário, uma figura…Talvez, única relíquia de um mundo de muitos futuros e recursos. Uma única figura que sobreviveu e deriva num oceano de desolação. O homem…Figura singular num mundo que julgava ser seu. Agora, haveria de ser devorado por esse mundo.
Ao se dar conta de sua existência, o último Sapiens inicia uma quase que incansável jornada em busca de semelhantes. Durante muito tempo, perambula sem destino, tendo apenas a solidão como companhia. Atravessa desertos…e desertos. Tudo parece muito vazio. A vida parece ter se perdido dentro do deserto.
Depara-se então com algo que um dia já havia possuído traços de civilização. Por instantes, as lembranças do mundo em suas antigas feições assaltam-lhe o pensamento. Agora…ruínas. Há uma grande identificação entre aquele lugar e aquela figura humana. Caminha pesada e angustiadamente por vias agora ornamentadas por destroços e fragmentos da existência humana. Restos… O abstrato parece ter se tornado concreto. Há algo que se move dentre o cenário. O silêncio é tão envolvente, que seus ouvidos conseguem captar aquelas batidas cardíacas. Um coração vivo. O coração de um pequenino rato branco, que bate descompassadamente dentro do diminuto corpo esfolado pelas atrocidades de uma guerra inútil.
Tomando o pequeno ser entre as mãos, o homem é envolvido por uma onda de sentimentos… Carinho. A fragilidade daquele ser o transportava para um passado não muito distante. Para o lado de alguém, que havia sido uma parte de sua existência… Um filho… Apenas lembranças… Agora, só destroços.
Logo reinicia sua caminhada à procura de si mesmo. Em instantes, o pequeno roedor torna-se verdadeira companhia ao solitário ser pensante. Sendo únicos e únicos na imensidão de um mundo desfigurado, os dois, diferentes por natureza, igualam-se enquanto seres existentes. As interrelações se confundem ao ponto de não haver mais distinção entre humano e roedor.
Os dois, rato e homem, homem e rato, continuam à deriva pelo espaço transfigurado que os cerca.
Mar… Nada poderia ser mais onipresente… Ao se deparar com tamanha imensidão, imutável apesar de tudo, a sensação de insignificância atingiu-lhe o peito de forma dilacerante. Ainda era racional… até que ponto? Aquele rato… como poderia se igualar a um ser tão desprezível? Um simples rato!
Numa atitude que expressa toda a arrogância, atira o pequeno roedor ao mar…
Remorso… arrependimento… o único ser vivo que havia encontrado, e ele próprio o havia exterminado.
Num lance desesperado, salta atrás do rato… em vão. Na praia, sozinho, o homem olha a sua volta. Nada. Vazio. Caminha. Uma poça d`água. Sede. Algo se move ali. Uma aranha se encaminha para aquela poça. Mergulha. Impacto! O aracnídeo se desintegra completamente naquela água. Água impregnada de radiação. Água que dava a vida e que agora a tirava.
Estranho magnetismo… o reflexo daquelas águas o atraem. De repente, o contato com sua própria imagem. Tão transfigurada quanto o mundo a que foi confinado. Não havia mais nada a fazer. Toma a água… Algo brilha no fundo da poça. Desespero. Corrida insana. Um abismo. Fim do sofrimento.
Sobre este texto
Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.
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BEIJÃO, VOCÊ É DEMAIS, TE AMO.