Caçador Urbano
Acordado…imerso nesta insônia que me acompanha desde sempre…agora mais…depois do acidente…aquele raio que me atingiu o peito. Era uma bela tempestade de verão no Rio. Na Pedra da Gávea, tudo sempre fica mais bonito. Até as tempestades…e foi diante de uma delas que aquela descarga elétrica acabou, para sempre, com a minha capacidade de dormir.
Hoje não consegui ficar em casa. O instinto, mais uma vez, levou-me a sair pela noite, sem destino. Chove muito na cidade. Tormentas que duram horas…muitas ruas estão completamente debaixo d’água. Procuro sair do caos urbano. Piloto minha moto de maneira a passar incógnito no emaranhado de automóveis, que os congestionamentos constroem.
É tarde…ou será cedo? A madrugada avança e eu…completamente vigilante, sem o menor traço de sono ou cansaço. Sinto minha cabeça dormente, meio que formigando. Não conheço o caminho que percorro. Mas a dúvida quanto ao lugar que me espera não me alcança.
Ouço o ruído tão peculiar de disparos de fuzil. Mais uma característica de uma cidade partida e repartida…Muitos dizem que ela não nos pertence mais…Estão enganados…Ela nos pertence sim…Aos poucos, o mal está sendo varrido das ruas e vielas…dos morros e dos asfalto..Eu não descanso…simplesmente porque não me canso…nunca…nunca mais, desde aquele raio no peito.
Mais tiros…muitos…como se o mundo estivesse em guerra. Uma guerra sem vencedores e vencidos, totalmente sem cabimento, sem que qualquer um de nós tenha a menor noção de onde e quando vai parar. Às minhas costas, atravessado pela bandoleira, o Barret .50… Presente antigo, que ousei dar a mim mesmo. A luneta NAPVS 10 faz parte do conjunto.
Mais formigamento na cabeça dormente…Meu instinto me faz parar a moto…o lugar é descampado, onde é possível observar a sequência de torres de transmissão de energia. A chuva aumenta…agora é quase um ciclone. O vento forte corta o rosto com as gotas de água que caem com força.
Deixo a moto encostada na torre…nenhuma alma viva num raio de muitas centenas de metros…Sem explicação, meu instinto me leva a subir a estrutura de metal da torre, enferrujada em muitos pontos…Ouço o ruído da tensão elétrica passando pelos fios e o chiado assustador do vento atravessando a sequência de torres.
Olho para o céu…fecho os olhos e deixo a água bater com força. A pintura negra resiste na face…o capuz, caído durante a escalada, é trazido por mim assim que meu corpo se acomoda na estrutura metálica. Esse capuz já é uma parte de mim…é como se me escondesse do resto do mundo embaixo dele…
Tiro o fuzil das costas… Puxo o bipé para baixo. Percebo que não precisarei deles…apoio o cano na própria estrutura da torres. Meus sentidos imergem na visão proporcionada pela luneta…Um belo alcance efetivo…1500 metros…É chegada a hora de caçar alguns demônios e mandá-los de volta ao inferno…
Observo o movimento em uma viela de um morro das imediações, completamente dominado pelo tráfico de drogas. Vários homens armados. Vejo fuzis, pistolas e metralhadoras…Durante minutos, vislumbro as ações dos marginais. Em pouco tempo é possível identificar o chefe.
Vejo-o de perto, graças a NAPVS 10. Um homem de vinte e cinco anos, branco, de aproximadamente um metro e setenta, trajando bermuda e camiseta de uma grife típica dos surfistas. O sorriso franco esconde uma personalidade que impõe o terror sobre a comunidade que domina. Muitas mortes em sua conta…muitos estupros, mutilações e torturas nos moradores.
Respiro…ouço as batidas do meu próprio coração. Totalmente pronto…puxo o gatilho do Barret .50 . O eco do ruído é abafado pela tempestade incessante. Pela luneta observo o projétil atravessar o olho direito do chefe do tráfico, que caiu desengonçado uma fração de segundos depois, diante dos olhos arregalados dos seus comparsas, que não sabem se correm ou socorrem o bandido.
Concentro-me novamente…Minha pulsação é inferior a quarenta por minuto. Mais dois disparos…mais dois demônios na porta inferno, seguindo seu chefe. O sorriso surge furtivamente na minha face. Recolho o fuzil…inicio a descida pela estrutura de aço sob o momento mais feroz da tormenta.
Aciono a ignição da moto, negra como eu, com o rosto totalmente pintado. Minha cabeça ainda está dormente, mas não formiga tanto. Nem sinal do sono. Muito menos do cansaço…Muitas vezes duvidei de mim mesmo…eu que não acreditava em anjos…devolvo, aos poucos, a cidade para seus verdadeiros donos.
Sobre este texto
Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.
9 comentários
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O que posso falar,resumidamente….ÓTIMO.
Muito Bom mesmo. -
S-E-N-S-A-C-I-O-N-A-L !!!!!!!!!!!!!!!!!!
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Show de bola!!
Parabéns Sandro!!!
Abraço.
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Caraca Sandrão!!! Mandou muito bem… Arrebentou!!
S-E-N-S-A-C-I-O-N-A-L!!!!!!!!!!![2]
Parabéns!!! Novamente…hehe -
"Concentro-me novamente…Minha pulsação é inferior a quarenta por minuto. Mais dois disparos…mais dois demônios na porta inferno, seguindo seu chefe. O sorriso surge furtivamente na minha face. "
Belo texto…sem mais.
abraço
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Caramba, um disparo na cabeça por uma Barret .50
SENSACIONAL
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cara muito foda a historia,nunca li algo tão diferente,ta de parabéns mesmo acabei de virar seu fã
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ADOREI, PENA QUE SEJA SÓ UM CONTO, MAS VOCÊ ESTÁ DE PARABENS, AMEI SUA MENTE BRILHANTE, FIQUEI ARREPIADA E ENVOLVIDA MESMOOOO!!!
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