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Brutalidade policial. O reflexo de quem somos

Por Pensamentos Imperfeitos Publicado em 05 de março de 2015 Atualizado em 18 de agosto de 2026 4 min de leitura
A polícia brasileira mata muito, porque muitos policiais são assassinados? Ou muitos policiais são assassinados porque a polícia mata muito? Poderíamos embarcar num embate meramente filosófico sobre o catastrófico cenário no qual as forças de segurança do país estão inseridas. Mas nós precisamos pouco de discurso. A necessidade maior é de planejamento e ação.
Parece que ainda não ficou claro para alguns, que a polícia brasileira é o retrato fiel da sociedade que jura defender. Abismos sociais, falta de perspectiva, preconceito e acolhimento de desvios de conduta por uma parcela considerável da população. Afinal, as redes sociais estão aí para confirmar, que a frase: “Bandido bom é bandido morto” é, seguramente, uma das que mais aparecem em postagens vindas dos mais diversos cantos do país.
A cultura do extermínio dos elementos que “incomodam”, está em todas as classes sociais e até mesmo nos corações de muitos que vem a público discursar sobre violência e desvios de conduta policial. Quando o cidadão enxerga o agente de segurança como uma espécie de cão de guarda seu, ele não contribui em nada para a evolução do padrão comportamental do policial. Muito pelo contrário.
Em muitos casos, as condutas equivocadas e até mesmo criminosas por parte de operadores de segurança são incentivadas pelo cidadão. Ouve-se  falar em policiais que pedem um “café” para fazer vista grossa para faltas de todo o tipo. Mas a verdade é que na maioria esmagadora das vezes, o cidadão pergunta:  “Não dá para resolver?”. E assim se inicia um ciclo interminável de desrespeito às leis, à ordem vigente e aos mais básicos conceitos de cidadania.
A violência excessiva de alguns agentes de segurança é resultado de fatores diversos. Mas o maior deles é, seguramente, o descaso com que a segurança pública é tratada no país há décadas. Gestores planejam uma polícia que atenda exclusivamente seus interesses, deixando o profissionalismo, a formação intelectual e cidadã e o treinamento constante em segundo ou terceiro plano. O próprio conceito de polícia ostensiva no Brasil é bastante questionável no mundo dito contemporâneo. A necessidade de homens fardados no patrulhamento das cidades e na repressão aos crimes, não está diretamente ligada ao conceito de militarismo. De forma nenhuma. Uma sólida formação em ciências sociais e cidadania, deveria ser o foco dos cursos que preparam os operadores de segurança. Isso garantiria que esses indivíduos tivessem uma compreensão um pouco mais profunda do mundo em que vivem e de sua importância no contexto no qual estão inseridos.
O que existe hoje é a antítese disso. Cursos de formação com ênfase na preparação para uma guerra, na qual a massa de jovens policiais se enxerga como o palco de uma espécie de luta pela sobrevivência. Muito cedo aprendem que têm inimigos específicos e que matar é um verbo que deve ser conjugado em primeira pessoa. De forma nem tão subliminar, esses homens carregam a certeza de que a violência é irreversível e a morte dos inimigos trará um enorme respeito da tropa que os acompanha. Em contrapartida, o treinamento contínuo é inexistente, o que explica, em parte, as baixas consideráveis nas fileiras das corporações.
Para muitos é brutal e bárbaro. Mas esses “homens da lei” são reflexo e resultado do que a sociedade é, de como ela age e de como ela pensa. Muitos que condenam o policial que tira a vida de um indivíduo de classe média, são capazes de arrumar mil justificativas se a vítima tiver o estereótipo do que consideram perigoso.
E assim a guerra prossegue. Com vítimas aos montes de ambos os lados. Policiais e os alvos de sua violência são atores de um triste espetáculo, dirigido por poucos, que raramente estarão em qualquer dos dois lados do conflito, que parece ser eterno por aqui.
Por Sandro Araújo

Sobre este texto

Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.

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Pensamentos Imperfeitos

Escritor e cronista

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2 comentários

  1. Sandro, sou leitor antigo das suas postagens. Mais do que possa imaginar. Em 2010 eu lia quase todos os dias, bem no início do meu curso de Direito.

    Hoje, por necessidades de me manter financeiramente, até mais do que preciso, tenho atuado na advocacia trabalhista em um escritório da minha própria cidade.

    Não que o meu elogio ou seu agradecimento por ele vão surtir qualquer efeito, mas é preciso dizer, seja através de comentário ou pessoalmente, se um dia for possível, que você escreve excelentes textos cara!

    Isso me remente ao que meu tio me diz: que tenho uma "visão romântica" da polícia; me diz que sou um "iludido".

    É engraçado e ao mesmo tempo gratificante (uma honra, por que não?) ver que tem outros iludidos como Eu. Tenho a felicidade de ter ver iludidos iguais a mim, meus melhores amigos, mikes, charlies, agentes rodoviários e advogados também que enfrentam meu dilema (financeiro vs. carreira policial).

    Continue a escrever, desabafar, transmitir experiência/conhecimento.

    Mantenha a chama acesa!

    Com tantos apedrejamentos do tipo "Advogado com tanto potencial querendo ser polícia, quem já se viu?", com tantas críticas comuns a quem escolhe a carreira na Segurança Pública como meta principal, aprendi uma coisa: ilusões não sem comem, mas alimentam.

    Não comentar não significa que eu não esteja aqui lendo e refletindo.

    Abraço!

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