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Abuso de Drogas…A dependência não depende de nada!

Por Pensamentos Imperfeitos Publicado em 28 de novembro de 2018 Atualizado em 18 de agosto de 2026 5 min de leitura
De diversos cantos do país surgiram comentários, quando o futuro ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta afirmou que pretende efetuar mudanças no sistema de tratamento de dependentes químicos. Segundo o médico do Mato Grosso do Sul, o índice de recidiva é de 96%. Ele tem razão. A recuperação e controle de danos gira, no máximo, em 5% dos que se sujeitam a qualquer tipo de tratamento. E em termos estatísticos, isso não é número para ser respeitado de forma alguma.
Independente da linha que o ilustre médico sugerir, o mais importante não é mencionado em nenhum discurso, nem dele, nem dos inúmeros gestores do sistema de saúde: a Prevenção. Apenas a informação de qualidade e uma enorme predisposição ao acolhimento pode minimizar os danos das substâncias entorpecentes na sociedade. O pós abuso é incontrolável e praticamente incurável. Simplesmente porque as razões dessa busca desenfreada por alienação não sumirão num estalar de dedos. A tristeza, a decepção com o mundo, a depressão, a falta de esperança e perspectivas, entre outras coisas, continuarão ali, diante do adicto o tempo inteiro.
 A quantidade de razões que dilaceram almas, que destroem corações e que levam pessoas e mais pessoas a buscar se ausentar deste mundo através das drogas é incontável. E isso acontece, desde que o mundo é mundo. Difícil demais acordar todos os dias e viver num cheio de incoerências e cobranças sem sentido. Um lugar onde boa parte dos relacionamentos é nocivo e aviltante. Caminhar, ser aceito por grupos A ou B em seus rituais de “iniciação”…Será que é tão difícil assim enxergar?
Que exemplos temos desde a infância? Nossos pais, irmãos, parentes em geral…sempre envolvidos em situações extremas, com emoções pouco controladas e excessos de comportamento. E isso tem pouco a ver com o fato do modelo de família ser ou não tradicional. Não mesmo. Eu mesmo sou um exemplo disso. Passei décadas buscando ser referência comportamental no que diz respeito ao uso de drogas diante dos meus filhos e isso não foi nem um pouco suficiente para evitar os dissabores de adicção na família. Se o pai acha que basta não consumir drogas nas suas vidas para seus filhos seguirem o exemplo, está redondamente enganado. Assim como eu estava.
Exemplos e referências sociais, piores ainda. Nossos “ídolos” são lástimas comportamentais na forma de gente. Indivíduos medíocres de pensamento, pouco apegados à realidade social e de condutas extremamente questionáveis. Se era assim quando eu fui adolescente há mais de trinta anos, imagine agora, com nossos baluartes da exposição desmedida a qualquer preço?
A verdade é que o mundo é ruim. A sociedade é má e doente. Os sonhos e desejos da maior parte de nós não se torna realidade e temos a certeza de que não somos acolhidos da forma que achamos que merecemos. Em todos os níveis. Em casa, na escola, no trabalho, no ponto de ônibus…por aí. E cercados que estamos por outros frustrados com muito, somos levados por uma torrente, em direção à doce sensação de estar ausente desse cenário doloroso.
“Doce sensação”? Sandro, que história é essa? Sim…é isso mesmo. Eu, que estudo o fenômeno das drogas na sociedade desde 2003, precisei sentir na própria pele o que é esse desejo de estar alheio, para compreender melhor o que se passa com tantos. Movido por grandes tristezas, uma depressão enorme, sentimentos de derrota, assunção de falhas de caráter minhas e muitas outras coisas, levaram-me a buscar “conforto” nos remédios de tarja preta. Horas e horas de alienação total do mundo. A impressão de que todos os problemas se diluíam na escuridão profunda do sono induzido. Eu estava caminhando para uma dependência sem volta…e apenas por minha exclusiva vontade não fiquei acorrentado para sempre.
Cada pessoa que caminha por este mundo é um universo amplo de desejos e expectativas. Invariavelmente, a maior parte disso vai descendo pelo ralo da frustração em algum momento. É aí que a prevenção deve estar mais que presente. Alternativas de qualidade para diminuir a profundidade do mergulho, que pode acontecer a qualquer momento. Mas, acima de tudo, o sujeito que está secretamente vulnerável, buscando saídas para suas dores, precisa se sentir acolhido. É necessário encher essas pessoas de esperança e isso tudo deve ocorrer antes do abuso mais contundente. É no ANTES que nossas chances aumentam. No DEPOIS, seremos obrigados a dar razão ao Dr. Mandetta ou qualquer outro que venha apontar para os pífios índices.
Sei que muita gente acredita que a linha meio militarizada de gestão, pode dar um jeito em tudo, Lamento apenas informar, que o abuso de drogas também acontece dentro dos quartéis, do recruta menos graduado ao comandante da unidade. Simplesmente não há receita para diminuir o envolvimento do ser humano com o entorpecente…Pois cada um é sem fim de nuances com suas particularidades. Assim como as impressões digitais, somos únicos em nossa essência e também no que ansiamos e nos decepcionamos.

Sobre este texto

Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.

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Sobre o autor

Pensamentos Imperfeitos

Escritor e cronista

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7 comentários

  1. Enfrentar a realidade nos dias atuais está cada vez mais difícil. Estamos vivendo uma época em que os sonhos estão deixando de existir. Estamos imediatistas. Queremos ser felizes hoje. Isto é perigoso. Precisamos de um motivo. Para ir ou ficar.

  2. Nada vai mudar temos é que fazer a nossa parte reagindo lutando e vencendo ou se entregar e afundar num caminho sem volta

  3. Vivi nesse mundo tenebroso das drogas durante anos e anos, a "cereja do bolo" por assim dizer foi o crack , foi onde vivenciei a degradação absoluta que um ser humano pode chegar. Andando pelas ruas debaixo de sol e chuva, dia, noite e madrugada na busca incessante dessa droga. Defino o crack como uma prisão sem muros. Porque quanto mais a pessoa usa essa substância mais ela quer usar , é uma necessidade infinita de uso. Passei por inúmeras internações entre elas hospital psiquiátrico. Conheci filosofias,pprogramação de 12 passos etc.
    Porém nada adiantava, não conseguia me manter em pé, até que conheci o amor extraordinário de Jesus Cristo e fui tocado por ele. Desde então nunca mais usei nada. E não estou aqui falando sobre fanatismo religioso não, pelo contrário tenho uma vida normal, maravilhosa por sinal ou seja,o oposto do sugerido por essas programações e filosofias relacionadas a dependentes químicos. Falo com conhecimento de causa e por minha vida,se tratando de usuários de drogas não tem meio é somente Jesus Cristo e cura , liberta e restaura. A palavra de Deus é viva e eficaz.
    Louvado seja o Santo nome do Deus Vivo.
    João 8:32-8:36.

  4. Realmente a parte psicológica é que move muitos a entrar no mundo das drogas… Uma fuga fugaz de sentimentos que não são bem processados pelo viciado… Mergulhar é bom… Voltar a tona e melhor ainda… Parabéns pelo texto…

  5. Texto sensível, Sandro. De fato, somos únicos e ao mesmo tempo enfrentamos as imperfeições de nossa condição humana. Ora imobilizados pelo "livre arbítrio" ante os apelos da satisfação a qualquer preço,ora mergulhando no fundo de nossas almas, corações e mentes – território conhecido e vivido somente pelo ser em suas intensidades variadas. Muitos de nós já mergulharam nessas "águas". Muitos pereceram, outros se iludiram com alegorias sociais, outros se quebraram em pedaços, uns saíram com marcas que o tempo e as novas condutas trataram de apaziguar. Mas há um propósito maior a ser trabalhado nos corações, pelo bem de cada um e de todos na ação simples,difícil e diária do respeito à si e ao outro. Trabalho de longo aprendizado.
    Parabéns pelo belo texto e por sua ação nessa área.

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