…
Escrevo pois esta semana me passou algo
importante. Eu acordei e enquanto lavava o rosto olhei no espelho e vi alguém.
Alguém diferente dos outros dias anteriores. Olhei e apenas vi, sem susto, sem
efeitos especiais sonoros. Uma mulher adulta em todos os detalhes. A menina se
fora. Tinha se tornado uma mulher bonita. Com a agudez que a maturidade é capaz
de trazer. Fiquei ali, eu comigo mesma, olhando aquela mulher. Pensando:
“Nossa. Quanta coisa vivemos até aqui, Ralhane.”
Sorri. O reflexo. E eu. Mas apenas eu, pois já sou apenas
uma, na contramão de como todos gostam tanto se se ver partidos. E dentro desse
banheiro, em segurança, meu reflexo me fez completa. As rugas não determinavam
a beleza, a sobrancelha por fazer não desabonava, falava sem palavras sobre
como cheguei aqui a este momento. À parte as manchas no rosto, estavam
presentes todas as sardas que a infância me deu. Não tinha filtro no meu olhar
para mim mesma. Eu não pensei em nenhum tratamento de beleza enquanto percorria
o meu rosto adulto. Foi um momento centralizador da minha unicidade com tudo
que há. Tudo abraçou-se neste dia. Eu grito e sigo, corroborando para ser quem
sou: “só vá! Que você sempre soube onde ir mesmo se estivesse perdida!”
Portanto para ilustrar o que procuro, não gostaria que fosse uma foto bonita.
Gostaria que fosse uma das fotos não postadas em que ao olhar, franzi o nariz
em desaprovação da minha própria aparência.
Eu não estou envelhecendo como o vinho. Nenhum de nós está.
Esta falácia não altera o observável envelhecimento da minha pele, dos meus
poros abertos, do meu corpo que gerou três vidas. Eu estou envelhecendo. E tudo
bem. Às vezes eu olho este feed e me encantam as nuances da minha experiência
nesta terra, em meio aos meus. Mas também às vezes me envergonho de não
encontrar o feio. O sujo. O sem filtro. O descabelado. Não de vento e ar-livre,
da viajante despreocupada que sempre fui, mas da selvageria dos dias, que fazem
muito mais frio por dentro que por fora aqui no Brasil. Não o submergir nas
claras águas transparentes de nenhum paraíso tropical. Mas o afundamento dos
sonhos e da mente nos dias difíceis de superar.
Este post é sobre os vendavais a que estamos expostos. As
tristezas e feiúras. As rugas. As coisas que nos tornam humanos fora do giro
dessa indigesta inteligência artificial. Dessa ditadura da beleza e dos
saberes, e da felicidade. Como são belos vocês, mentir…er, influenciadores de
rede. Explodindo tristeza detrás dos rostos harmonizados e idênticos,
estipulando o valor alto do estereótipo e jogando na cara dos tantos
miseráveis, frutos desta desigualdade nossa de cada dia. Abracem suas trevas, o
caminho nunca foi pra fora. A ditadura dos saberes constituiu a sociedade da
lacração, e meu conselho é: fujam para as montanhas! Pegar carona na ignorância
alheia não vai construir comunidade. Divergir em arrogância não vai construir
comunidade. E sem convergência não construiremos compaixão. E sem compaixão, a
humanidade segue violenta. Fria. Feia. Dividida. Em filtros. Em falsas
normalidades anormais. Clamando por uma liberdade que só caminha para validar
desrespeito e violência à outros modos de vida. Ou para validar a loucura do
acúmulo sem limites de capital pelas grandes corporações, enquanto decidimos se
elegemos um macho assediador, um político muito corrupto ou outro político
muito corrupto ou quem sabe um lobista do capital para o Governo do meu estado
(eu escolhi minúsculo, mesmo). Eu faço isso. Me revolto ortograficamente.
Volto ao maiúsculo quando fizer sentido na sintaxe. Neste
panorama?! Meu bem. Temos exatamente o que merecemos. Parabéns, sociedade
do Estado do Rio de Janeiro! Parabéns por nada. Me xinga! Me cospe, me aponta!
Que hoje eu tô muito muito feia e não tô ligando para absolutamente nenhuma
feiúra! (De dentro, as únicas que existem de verdade) Eu não quero o seu like,
eu tô buscando compreender seus afetos, verificar se no seu peito, ainda bate
um coração humano. Se eu puder, escolho desinfluenciar você aos poucos, como
fazemos para nos livrar de todo veneno amargo que inventam para nos aprisionar.
Por Railane Borges
Sobre este texto
Conteúdo autoral e opinativo, escrito a partir de experiências e leituras pessoais do autor. Reprodução permitida desde que citada a fonte e mantida a integridade do texto.
5 comentários
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Que lindo desabafo! Essa sociedade podre, que não nos ajuda em nada! Parabéns Railane Borges! Faço minha as suas palavras. Texto lindo, reflexivo. Você é expressiva, maravilhosa💗
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Você me representa como mulher! Parabéns por expressar tão bem esse sentimento cada vez mais escasso.
Escreva mais, por favor. -
Você me representa como mulher.
Parabéns por expressar tão bem esse sentimento cada vez mais escasso.
Escreva mais. Por favor. -
Eu amei!!
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